FOTO: Ulysses de Castro

A fotografia nordestina: um intercâmbio de possibilidades

Segundo dia do Festival de Fotografia de Tiradentes apresenta um panorama da fotografia da região Nordeste do Brasil

Dona de muitas belezas, a região Nordeste do Brasil é também berço de diversos fotógrafos. A intimidade com a fotografia é tão grande que, no Ceará, existe um festival para reunir fotógrafos de todos os estados nordestinos. O Festival Encontros de Agosto promove palestras, workshops, além de fazer circular e a possibilitar intercâmbios entre outras regiões do Brasil, e até mesmo de outros países.

O segundo dia do 7° Festival de Fotografia de Tiradentes trouxe a diretora do Encontros de Agosto, Patrícia Veloso, para apresentar aos participantes um panorama da fotografia nordestina, trazendo imagens de 17 dos 54 fotógrafos que apresentaram seus trabalhos no Encontros de Agosto do ano passado.

Durante a palestra, alguns dos fotógrafos que contribuíram para a exposição estavam presentes e puderam compartilhar de suas experiências junto de Patrícia. Ricardo Arruda e Ulysses de Castro são dois deles, e contaram um pouco de seus trabalhos para o público.

7º Festival de Fotografia de Tiradentes - Foto Em Pauta - Foto: Nereu Jr ©2017
7º Festival de Fotografia de Tiradentes – Foto Em Pauta – Foto: Nereu Jr ©2017

Reconhecimento da fotografia nordestina

Em sua palestra, Patrícia falou um pouco sobre a importância da fotografia nordestina. Para ela, a realização de eventos como Festival de Fotografia de Tiradentes são uma forma de proliferar a fotografia no país.

A cidade mineira atrai olhares dos mais diversos cantos do país para o festival, proporcionando um aprendizado cada vez maior àqueles que estão começando a carreira, ou que já a têm firme na fotografia. “Estar em Tiradentes fortalece e afirma esse espaço de que a fotografia precisa ser vista, dentro e fora dos seus territórios, contribuindo com o conhecimento e o aprimoramento dos profissionais”, disse Patrícia.

A exposição “Oriente Risco” que está em cartaz no Centro Cultural Yves Alves, é um recorte da exposição que está no Museu Dragão do Mar, em Fortaleza (CE). A mostra pode ser visitada até o dia 15 de abril no no Centro Cultural.

FOTO: Ulysses de Castro
FOTO: Ulysses de Castro

Fotógrafo registrou um grupo de penitentes na Bahia

Na época da Quaresma é comum observarmos que o clima e o ambiente se transformam. Em Minas a forte tradição católica nos lembra que a quarta e a sexta-feira é dia de jejum, e que este é o momento de reflexão e penitência. No restante do Brasil isso também acontece, com comemorações religiosas, grupos que rezam em favor da salvação do mundo e diversos movimentos um tanto particulares.

Ulysses de Castro é natural de Senhor do Bonfim, ao norte da Bahia. Seu trabalho está presente em Fortaleza com oito fotografias, e uma em Tiradentes. Às margens do Rio São Francisco, em Juazeiro da Bahia, sob a luz da lua Cheia, Ulysses fez relatos de pessoas que utilizam-se de métodos de autoflagelação, na época da quaresma, como forma de reduzir os pecados.

São dois tipos de penitentes na região do Velho Chico: as alimentadeiras de almas e a autoflagelação. Em 2015 o fotógrafo conheceu um grupo de alimentadeiras de almas, que foi seu primeiro trabalho com a penitência. “Sempre à noite, na quaresma, as senhorinhas saem rezando em pontos da cidade onde vidas foram retiradas de forma violenta”, conta. O grupo sai de duas três vezes por semana, sendo ato intensificado na Semana Santa. “Elas rezam por toda a cidade, chegando até o ponto máximo, que é o cemitério da cidade”. As fotografias de Ulysses foram aceitas no Festival do Sertão, em Feira de Santana, em 2015.

A autoflagelação é uma forma, de acordo com Ulysses, de penitência mais pesada. Os grupos são de caráter mais fechado, e não são tão receptivos como as alimentadeiras de almas. Ulysses chegou até um grupo por meio de Dona Nenezinha, uma das rezadeiras que conheceu. Em 2016 o fotógrafo conseguiu registrar um desses grupos. Ele conta que muitos dos penitentes são muito reservados por conta da imagem: “a auto flagelação deixa marcas nas costas dos praticantes, e eles tomam cuidado para não expô-las em público porque é tudo vem reservado”.

Hoje os participantes que praticam o ato, em sua maioria, vêm de baixa renda, mas pessoas de classes mais altas já participaram dos grupos também. Muitos não revelam às suas famílias que participam desses grupos. Pelas margens do Velho Chico, Ulysses utilizou-se somente da luz do luar e das velas que os auto flagelantes utilizavam para rezar.

A preocupação em manter e registrar as tradições, como as de penitência, fizeram com que o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) realizasse um dossiê para ser apresentado ao Conselho Estadual de Cultura (CEC).

As duas formas de penitência de Juazeiro da Bahia foram levadas apresentadas para que fossem tombadas como patrimônio imaterial do estado, mas por haver imagens fortes, de auto flagelação, não foi aprovado. Ulysses disse que “é difícil algo documental, pois existe todo um preconceito e um estigma em relação à prática. Assim como sofrem o Candomblé e a Umbanda essa penitência tem suas perseguições”.

As fotos e o portfólio de Ulysses podem ser conhecidas no site de mesmo nome, aqui.

 

TEXTO/VAN: Andreza de Cácia

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