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Um dos moradores da comunidade Palmital. FOTO: Aléxia PInheiro

Abolição da escravatura: uma data para refletir

Há razões para comemorar?

Pintura de Jean-Baptiste Debret sobre a escravidão.FOTO:Reprodução
Pintura de Jean-Baptiste Debret sobre a escravidão.FOTO:Reprodução

A Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil, foi assinada em 13 de maio de 1888 pela Princesa Isabel – regente do trono brasileiro. A data, que encerrou três séculos de escravidão no país, no entanto, não é comemorada pelo Movimento Negro em razão do  tratamento direcionado aos ex-escravos na época.

O sociológo Floristan Fernandes afirmava, em 1964, que as classes dominantes não contribuíram para inserir o ex-escravo na sociedade. O Dandara de São João del-Rei é um grupo feminista negro que, desde 2013, discute questões relacionadas a políticas públicas voltadas para a população negra, principalmente os direitos da mulher. O grupo também problematiza a falta de políticas de inserção dos recém-libertos.

Segundo Cléo Souza, uma das participantes do Dandara, a data deve ser entendida como crítica e um estímulo à reflexão. De acordo com a estudante, em 2015, na comemoração da Abolição, o grupo fez uma intervenção chamada ‘Ah, branco, dá um tempo’,  que consistia em fotografias de pessoas negras, segurando placas com frases de cunho racista, ainda ditas no ambiente acadêmico. “A data foi escolhida, pois o grupo entende que, apesar da Abolição da Escravatura, estamos falando historicamente de uma população negra recém-liberta, que, desde então, é neglicenciada em relação a várias questões sociais e teve de enfrentar uma grande dificuldade para adquirir determinados direitos no pós-abolição”, explica.

Para o professor de história Asafe Luiz Sarkis Luz, a data deve ser lembrada e estudada para que a sociedade se conscientize. “A sala de aula é o espaço ideal para que o professor, independente de cada matéria, transmita um senso crítico, uma abordagem social e uma conscientização educacional”, afirma.
O longo tempo de escravidão deixou marcas profundas na sociedade brasileira. Até hoje, a população negra tem, em média,  piores condições de vida do que a população branca. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os trabalhadores negros ganharam, em média, apenas 59,2% do rendimento dos brancos em 2015.

Além disso, de acordo com o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Racial de 2014, os jovens negros têm 2,5 mais chances de serem assassinados no Brasil. “São problemas seríssimos que vieram com os resquícios da escravidão e interferem até os dias atuais em nossas vidas. É hora de fazer reivindicações, mostrar esses números e de colocar na mesa nossa criticidade em relação a essas continuidades e rupturas, tentando estabelecer meios práticos para combater tais questões.”, afirma Cléo.

 

Os quilombos

Um dos moradores da comunidade Palmital. FOTO: Aléxia PInheiro
Um dos moradores da comunidade Palmital. FOTO: Aléxia Pinheiro

No período de escravidão no Brasil, os negros que conseguiam fugir se refugiavam em locais escondidos e fortificados no meio das matas. Esses locais eram conhecidos como quilombos, onde viviam de acordo com a cultura africana, plantando e produzindo em comunidade. Atualmente, existem mais de 2 mil comunidades quilombolas no Brasil, que lutam para manter suas tradições e também seu território.

O professor Asafe explica que a existência de quilombos nos dias atuais é o reflexo do processo mal conduzido da libertação dos escravos. “A falta de oportunidades para um ex-escravo, a não aceitação deles nas cidades, o descaso com a condição da classe social recém-formada, a vinda de imigrantes para “branquear” o Brasil e todos os atos governistas que excluíram por tanto tempo os negros da vida política do Brasil disseminaram uma mentalidade de fuga e de isolamento de multidões negras, que encontraram nos quilombos sua moradia, mesmo com a ‘liberdade’”, esclarece.

O projeto Programa de Educação Financeira para Inclusão Sustentável (PEFISS), da Universidade Federal de São João del-Rei – UFSJ, busca em conjunto com os cursos de economia, zootecnia, arquitetura, artes aplicadas e jornalismo, ajudar as comunidades quilombolas do Jaguara e do Palmital, na cidade de Nazareno. Os grupos visitam as comunidades normalmente aos sábados e contam com transporte da prefeitura para levarem doações de utensílios de primeira necessidade, como roupas e sapatos, e também objetos para lazer.

O bolsista do programa PEFISS Lucas Linduares conta sobre sua experiência. “Sempre fomos bem recebidos. Buscamos ajudar, porque as duas comunidades são bastante carentes. Nosso trabalho lá consiste em fornecer auxilio para o desenvolvimento das comunidades, não só em questão econômica, mas também de bem-estar social”, afirma.

Estudantes da UFSJ fizeram campanha para doar produtos para comunidade quilombola Palmital, em Nazareno. FOTO: Silvia Cristina Reis
Estudantes da UFSJ fizeram campanha para doar produtos para comunidade quilombola Palmital, em Nazareno. FOTO: Silvia Cristina Reis

 

Reflexão deu samba!

Em 1988, a escola de samba Estação Primeira de Mangueira desfilou com o enredo “Cem Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão”. O objetivo foi questionar a suposta liberdade promovida pela Lei Áurea, visto que os recém-libertos continuaram à margem da sociedade. Ouça o samba-enredo.

 

TEXTO/VAN: Elaine Maciel

COLABORAÇÃO: Anna Virginia

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