Araripe, o mestre das flores

Oscar Ararípe é um homem de fino trato. Sua casa em Tiradentes, junto ao estúdio e sede da Fundação que leva seu nome, na ladeira da Matriz (Rua Direita), é um dos endereços mais charmosos e caros de Tiradentes. Na sala de exposições, com 80 metros quadrados em puro branco, com direito a um piano de cauda também branco, suas telas multicoloridas reinam absolutas. No atelier, livros de arte, uma cristaleira antiga e histórias de vida: um retrato de Cidinha, sua linda mulher, e a medalha artística das Olimpíadas de Londres. No terraço, onde costuma pintar, inusitadamente, o paredão azul da Serra de São José se impõe. Tudo atrai o olhar e o interesse, como a história de Oscar Araripe. Mas nem sempre foi assim. O pintor consagrado que iniciou a Faculdade de Direito e foi diversas vezes punido como “subversivo”, se refugiou no exterior e posteriormente num sítio em Mirantão, onde viveu mais de dez anos sem luz elétrica. Homem de múltiplas habilidades levantou polêmica na imprensa, na arte e na vida e deixa a sua marca, em tudo que se propõe a fazer.

Trajetória

O jeito, a prosa, o bom humor e o estilo é de carioca. A calma, o espírito anfitrião, o charme e a camaradagem é de mineiro. E foi assim, moldado na nobreza dos subúrbios do Rio de Janeiro, antes de ganhar o mundo, e depois, aterrisar em solo mineiro, que Oscar Araripe construiu a sua história intrigante, guiada por genuínas paixões e, por isso mesmo, emocionante. De estudante e militante político, escritor e jornalista, até se tornar pintor e viver da arte, a ousadia de quem reinventou a própria história.

Oscar Araripe nasceu e foi criado na Tijuca, zona norte do Rio, até se mudar para Ipanema. Iniciou os estudos na Faculdade Nacional de Direito, em 1964, e como militante do lendário CACO e depois, da Ação Popular (AP) foi cassado e suspenso das aulas. Nascia um líder e defensor de todas as liberdades. Perseguido, se exilou nos EUA com bolsa de estudos. No teatro, foi ator, escritor, tradutor e crítico. No jornalismo, editor cultural, colunista, redator e repórter do Correio da Manhã, Última Hora e Jornal do Brasil. Viajou à Polônia, Alemanha e a China, o que resultou no livro “China, o Pragmatismo Possível”, de 1974. Com o sucesso da obra vê fecharem-se as possibilidades de trabalho na grande imprensa e fora dela. Com determinação, se recolhe no remoto vilarejo de Mirantão, interior de Minas, sendo obrigado a inventar um novo trabalho. É quando, no dizer do marchand Jean Boghici, “achata as palavras e se torna pintor”.

Nasce um pintor

A curiosidade e o fôlego que inspiraram o jovem repórter também marcaram a vida de Araripe em suas experimentações artísticas, como o suporte sintético usado em suas telas. Autodidata, rejeitado pelas grandes galerias, abre sua galeria pessoal quando se muda para Ouro Preto, no final dos anos 80, após 13 anos em Mirantão, pintando, escrevendo e trabalhando como apicultor. Em 1993 muda-se para Tiradentes, onde inaugura estúdio e galeria pessoal. Em Porto Seguro, onde vive por quatro anos, inaugura a fase das marinas. Seu trabalho, já reconhecido, salta as fronteiras do Brasil e Araripe começa a participar de exposições internacionais. Nos últimos anos, abandona todos os temas e concentra-se nas “flores” com a mesma paixão que abraçou tudo em sua vida. “Depois de Deus, ninguém produziu tantas flores” disse Sérgio Rouanet.

De volta a Tiradentes, inaugura em 2006 a Fundação Oscar Araripe, com foco na inserção social pela educação através da arte, acolhendo todas as classes sociais, intelectuais e estéticas.

Tempo de colheita

De lá até aqui, tempos pródigos para o escritor e pintor Oscar Araripe, com projetos concretizados, como o belíssimo Artbook sobre sua vida e obra, e reconhecimento pelo trabalho realizado. Em 2012 recebeu a Medalha de Ouro nas Olimpíadas Artísticas de Londres, e teve o livro O Direito à Arte, lançado em sua homenagem. No mesmo ano, expôs na prestigiosa Galeria Teodora em Paris, como pintor convidado. Em 2013, no entanto, uma conquista emocionou o ex-militante da Ação Popular (AP). Após 48 anos, foi anistiado pelo governo, numa das ações da Caravana da Anistia.


Prestígio e reconhecimento

Os tempos de glória continuam e nos próximos meses Araripe coleciona medalhas, honrarias e também desafios no empreendimento que inicia. A temporada de louros não é por acaso, é o reconhecimento de muito trabalho, persistência e empreendedorismo. No mês passado o pintor foi agraciado pelo conjunto de sua obra com a medalha de ouro da Academia de Artes, Ciências e Letras de Paris, uma das maiores honrarias da França. Desde maio, Araripe já marca presença em Paris com exposição permanente na prestigiada Galeriedes Glaces, em Nantes, na qual expõe 16 telas florais.

Home Gallery

Mas o que se tornou a menina dos olhos do pintor é o novo empreendimento em Belo Horizonte, a ser inaugurado ainda este mês. A bela Home Gallery representa o novíssimo conceito de exposição de arte no mundo. “Não é para morar, é para namorar, relaxar, admirar as pinturas, conversar, receber os amigos e colecionadores em um ambiente genuíno e familiar” explica o artista.

Texto: VAN/Claudia Simões
Foto: Arquivo Fundação Oscar Araripe

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