A cura começa pelo olhar

Entenda
sobre a hanseníase e a importância da auto-observação
“As pessoas tem
que estar atentas ao próprio corpo e atentas aos sintomas. Às vezes é uma
manchinha que no início a pessoa não percebe ou não dá atenção. Observe seu
corpo, suas mãos. Observe. Se alguma coisa acontecer de diferente, se aparecer
algum sintoma da hanseníase, procure uma unidade de saúde para auxiliar no
diagnóstico. O diagnóstico precoce é fundamental para a cura do paciente e para
a não disseminação da doença”, afirma a coordenadora da Epidemiologia da
Secretaria de Saúde de São João del –Rei, Eliene Freitas, em alerta sobre a
importância do diagnóstico precoce da hanseníase.
            A hanseníase é uma das doenças mais
antigas que ainda atinge o homem. Além de, em estágio avançado, causar sequelas
como úlceras, perda da força muscular e deformidades, a doença de Hans já
segregou milhares de brasileiros nos antigos leprosários. Agora, o tratamento
da doença não é mais pautado na reclusão, mas em antibióticos, e o diagnóstico
precoce evita as sequelas. A hanseníase tem cura e é fácil de tratar.
            A dermatologista Valéria Azevedo
Junqueira, que atende os casos de hanseníase na Policlínica Central de São João
del-Rei,  explica que a doença é causada pelo bacilo Mycobacterium leprae,
e a transmissão se dá pelas vias aéreas: uma pessoa com a forma infectante da
doença, e que não tenha iniciado o tratamento, pode passar o bacilo por meio de
secreções nasais, tosses e espirros.
            O contato direto e prolongado com o
doente em ambientes fechados, pouco ventilados e com pouca luz solar aumenta a
chance de infecção. Muitas pessoas têm o organismo resistente ao mycobacterium
leprae, por isso poucas das que contraem o bacilo adoecem. Entretanto,
condições de vida precárias, desnutrição e outras infecções simultâneas,
aliadas a pouca informação, podem favorecer a proliferação da doença.
            Valéria Junqueira também esclarece
que os sintomas mais frequentes são manchas brancas ou vermelhas, caroços ou
nódulos com perda da sensibilidade, e o surgimento de áreas anestésicas
(sensação de dormência), em locais como mãos e pés, por exemplo.
            O diagnóstico da hanseníase é feito
por meio de exame clínico, nas unidades básicas de atendimento ou nas equipes
do Programa de Saúde da Família (PSF). No tratamento, chamado poliquimioterapia
(PQT), o paciente toma antibióticos administrados mensalmente e de forma
supervisionada pela equipe de saúde e consome doses diárias em casa. A dermatologista
explica que o tratamento é gratuito, e o remédio é fornecido pelo Ministério da
Saúde. Em São João
del–Rei, quem suspeitar que está com a doença pode procurar atendimento nas
equipes do PSF nos postos de saúde mais próximos de casa ou na Policlínica
Central.
Minas Gerais
registrou 1.523 casos de hanseníase em 2010
           
            No Brasil, o índice da hanseníase é
alto, com cerca de 47 mil novos casos detectados por ano. Apesar de não estar
entre as regiões mais endêmicas do país, que são o norte, nordeste e
centro-oeste, Minas Gerais registra altos índices da doença. De acordo com a
Gerência Regional de Saúde de São João del-Rei, foram contabilizados 1.523
casos em todo o estado durante o ano de 2010. A região de Governador Valadares é a mais
preocupante, com 263 ocorrências. Na zona regional de São João del–Rei, que
envolve mais 19 cidades vizinhas,  foram contabilizados seis casos no
último ano.
            Segundo a secretaria municipal de
Saúde de São João del -Rei, os seis casos foram registrados na cidade. Apesar
da baixa incidência, a técnica em controle de hanseníase do órgão do estado,
Aderlaine Neri, estima que outros casos ocorram sem serem notificados. Ela
acredita que não são registrados mais casos na região, porque as pessoas,
muitas vezes, não procuram o atendimento e não é feito o diagnóstico. O número
de ocorrências da hanseníase em 2011 será contabilizado pelo governo no início
do ano que vem.
            De acordo com Neri, os recursos do
governo do estado atendem às necessidades básicas ligadas à hanseníase, como
medicamentos e profissionais capacitados, mas não suprem a demanda por
investimento em
informação. Para a técnica, falta veiculação de campanha em
mídias populares e em horários que atinjam o trabalhador. “O maior problema
sobre a doença é a falta de informação”, critica.
Estigma
            Duas das grandes marcas da
hanseníase sempre foram o medo e o preconceito. Antes conhecida como lepra, ela
segregou muitos brasileiros. Em todo o país, havia os leprosários, onde as
pessoas buscavam tratamento e eram excluídas dos não doentes. O mais famoso
leprosário de Minas, a Colônia Santa Isabel, em Betim, foi clausura para
portadores de hanseníase de todo o país. A colônia, fundada em 1931 e a maior
de todas da América Latina, era cercada com correntes para impedir o contato
entre doentes e pessoas saudáveis. Eram comuns os casos de pessoas que, ao ter
a doença detectada, iam para os leprosários e nunca mais tinham contado com
familiares.
            O estudo da doença comprovou que o
isolamento não era a melhor forma de ação e, oficialmente, a prática foi
considerada extinta no Brasil em 1962. O tratamento poliquimioterápico, com o
uso combinado de antibióticos, passou a ser o mais indicado.
            Depois de anos de segregação, os
leprosários mudaram o seu perfil. Muitos foram transformados em hospitais
gerais, como é o caso da Santa Isabel, e outros em centro de pesquisa. Até
hoje, muitas pessoas que passaram a vida internadas continuam nesses locais,
pois perderam os laços afetivos e sociais com a “sociedade saudável”, a qual
foram obrigadas a abandonar. A forma de tratamento da doença mudou, e o
preconceito vem diminuindo. “Tem preconceito, mas já não é a mesma coisa que
antigamente, pelo menos na região”, destaca Valéria Junqueira.
            Juliana de Carvalho terminou o
tratamento da hanseníase na Policlínica Central de São João del-Rei em abril,
depois de um ano de acompanhamento médico. Ela disse que nunca viveu uma
situação de preconceito. Entretanto, Juliana evitava falar às pessoas que
doença tinha. Nos dias de consulta médica, ela saia do trabalho falando que ia
fazer um tratamento na Policlínica, mas não dava nome para a doença pelo receio
de como as pessoas iriam reagir.
            A informação também ajuda em outra
mudança do olhar, além do incentivo à auto-observação do corpo. Quanto mais as
pessoas sabem sobre a doença, mais diminuem o preconceito e o estigma da
hanseníase. “É importante a informação, para a pessoa não ficar desesperada, porque
[a doença] não é uma coisa tão assustadora não. Eu achava que era, mas não é
não”, diz Juliana de Carvalho.
            “Quando você tem conhecimento do que
realmente é a hanseníase, você não vai ter medo da doença. Não vai deixar de
cumprimentar quem está doente, porque não é desse jeito que pega, vai saber que
pode conviver e trabalhar junto com a pessoa”, explica Valéria. A
dermatologista ressalta ainda que após 72 horas do início do tratamento já não
há possibilidade de contágio.
Texto e Foto: Ana Gabriela Oliveira
Modelo: Érika Camila
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