cronica

Da água pro quentão

Lembro que, em Maio, a criançada já começava ensaiar quadrilha na escola, tudo pra chegar no dia da festa e dançar pior do que o primeiro dia de ensaios. Mas ninguém ligava, pelo contrário, era o orgulho das famílias que mandavam pacotes de amendoim e canjica pras tias da merenda, uma semana antes daquela tarde. Mas o inesquecível mesmo era a pescaria: Várias lembranças que sequer usaria, mas a alegria de pescar e poder falar pro coleguinha já valia qualquer saboneteira de plástico ou brinco que as mães nunca usariam.

Mas aí a gente cresce e começa frequentar festa junina de gente grande. É um pouco menos colorida, tem fogueira de verdade e a gente quase morre de frio por virar a noite. Por isso muita gente resiste a essa tradição, não gosta de quentão nem canjica, mas no fim é só mais uma oportunidade de se divertir com quem a gente gosta. Não precisa usar xadrez ou apreciar a música sertaneja e forró, dá pra ignorar o que estiver tocando só ouvindo as piadas de alguém.

Na última, ao invés de assistirmos a quadrilha maluca que todos poderiam participar, ficamos olhando dois bêbados brigarem, meio desengonçados, do lado da fogueira. “Quem vai jogar o outro lá dentro primeiro?” era um medo. Com o tempo, aquela roda de gente tentando se esquentar com as garrafas de bebida ruim no centro tornou-se mais confortável que a cama em qual estaríamos, naquele momento, assistindo Netflix. Com o tempo, até que a música não era tão ruim assim, a perna começava a mexer sozinha.

Não havia bandeirolas, nem de jornal, mas dava pra admirar o céu limpo, lindo, cheio de estrelas. Aquela não era uma típica festa junina carregada de festividade sertaneja, da religiosidade de comemorar a época dos santos populares, da vizinhança toda se encontrando, mas deu pra perceber que muita gente esperou o ano todo por aquele momento.

Dá pra sentir certo alívio por desfazermos dos preconceitos. Vindos de uma realidade privilegiada, porque sairíamos dessa bolha de conforto para fazer parte do simples, do humilde? Porque sim, porque toda essa tradição vai muito além. É a lembrança das comidas da avó, mesmo o pastel não estando tão recheado, é a origem de nossos pais e avós, é significado.

Depois de enfrentar a longa fila das fichas várias vezes, rindo alto em meio à “sofrência” do repertório, da fogueira só sobrou as brasas. Nem a pessoa mais corajosa da roda teve fé de passar lá, então resolvemos vir embora. Ao cruzar novamente o arco de bambu que pingava orvalho gelado no povo, só veio a vontade de voltar no ano seguinte.

Por Sagner Alves

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