Das ruas para a valorização profissional

A artesã Joana Darque Ferreira Alves é um exemplo de  determinação e  coragem. Joana foi criada sem a presença do pai e sua mãe tinha problemas mentais. “Minha mãe veio da roça para São João del-Rei e era doente, quando ela tinha crise, ela dava os filhos para os outros. E quando ela melhorava, ela tentava recuperar os filhos”, afirma a artesã.

Doada para uma família do Rio de Janeiro, Joana ficou dois anos longe dos irmãos. Segundo ela, alguns deles foram para um orfanato e outros sumiram. Aos  oito anos de idade, quando Joana estava a passeio por São João del-Rei,  ela soube que sua mãe estava doente e fugiu para cuidar dela. Além disso, ela apanhava dos pais adotivos e não queria morar mais com eles. “Uns quatro meses depois, minha mãe morreu e eu não tinha ninguém para cuidar de mim. Então, fui morar debaixo da ponte”, declara.

Essa fase da sua vida foi muito sofrida. Joana conta que comia lixo e apanhava na rua. “Até hoje eu tenho cicatrizes no corpo de água fervendo que me jogaram, porque eu mexia no lixo. Foi uma fase muito triste para mim”, ressalta. Aos 14 anos, ela conseguiu um emprego numa fábrica de tecidos de São João del-Rei e nessa época morou com uma colega de trabalho.

Aos 20 anos se casou. Joana procurou fazer algo para ajudar na renda familiar, a partir daí começou a se interessar por trabalhos artesanais, foi expandindo suas criações e clientes. “O artesanato é um trabalho muito bonito, eu gosto e me encontrei com essa atividade”, declara.

Uma das irmãs da artesã foi criada num orfanato que existia na cidade, foi lá que Joana aprendeu a produzir o licor de frutas, um de seus produtos mais conhecidos. “Eu comecei a trabalhar com a produção de licor artesanal há 37 anos, quando eu visitava minha irmã no orfanato. Lá tinham as irmãs de caridade que faziam a bebida e me ensinaram”, afirma. 

“Para comprovar a qualidade do licor, eu deixo sempre nos lugares de venda alguns sabores para degustação. A pessoa tem que provar para saber o que está levando”, opina. Hoje, Joana produz cerca de 30 sabores e o licor artesanal é um de seus produtos que estão em processo de avaliação para ganhar o selo de qualidade, pelo Instituto Centro de Capacitação e Apoio ao Empreendedor (Centro Cape). 

Junto ao licor, estão também as rosas de chita e as flores de envies produzidas pela artesã. São ao todo 12 sessões, sendo quatro para cada produto analisado. Joana afirma que os avaliadores acompanham seu trabalho durante todo o dia e tiram fotos dos processos de fabricação com cópias para ela.

A participação de Joana Darque no Centro Cape foi uma indicação da ex-diretora da Fundação Bradesco, Ruth Viegas, pois a artesã ministrava cursos gratuitamente, na Escola Estadual Dr. Garcia de Lima, na qual a irmã de Ruth era diretora. O envolvimento com trabalhos voluntários é uma das exigências para a participação do processo que oferece o selo aos produtos artesanais e a possibilidade para que sejam exportados.

VAN/ Marina Ratton
Foto: Marina Ratton

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