Descarte incorreto de lixo também afeta os patrimônios naturais da região

Exposta aos maus hábitos dos turistas, a Serra de São José abriga uma importante área de Mata Atlântica, com trilhas coloniais, cachoeiras e 50% das espécies de libélulas de MG. Já a Serra do Lenheiro, em São João del-Rei, resguarda um pequeno cantinho de Cerrado, com nascentes, quedas d’água e plantas medicinais típicas

 

Berço da formação histórica das cidades de São João del-Rei, Tiradentes, Santa Cruz de Minas, Coronel Xavier Chaves e Prados, a Serra de São José é conhecida nacionalmente pelas belas paisagens, trilhas e cachoeiras. Em 2004, com a criação do Refúgio de Vida Silvestre Libélulas Serra São José, cerca de 80% da área foi elevada à categoria de unidade de conservação de proteção integral.

A região abriga cerca de 50% de todas as espécies de libélulas conhecidas em Minas Gerais e cerca de 18% de todas as espécies encontradas no Brasil. A Serra preserva uma importante área remanescente da Mata Atlântica, bioma declarado Reserva da Biosfera pela Unesco, em 1994.

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Arte: Scarlet Freitas

Devido a toda essa riqueza ambiental, a Serra de São José recebe muitos visitantes e turistas, o que aumenta o risco de mau uso do local, com acúmulo de lixo, queimadas e poluição das águas. Segundo o professor e pesquisador Luiz Antonio da Cruz, um dos idealizadores da Área de Proteção Ambiental da Serra, a APA São José, é muito comum, especialmente nas áreas de acampamento, encontrar garrafas PET e de vidro.

A administração da Serra é feita pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), gestor de todas as unidades ambientais do Estado de Minas Gerais. Porém, o órgão não possui  equipe especializada para cuidar do lixo do local. Apenas contrata pessoal no período de seca para ajudar no controle dos incêndios florestais.

O professor Luiz Antônio explica que, pela falta de fiscalização do lixo, muitos animais se alimentam de resíduos como plásticos. “Isso pode causar um dano irreversível para a saúde do animal”, esclarece. Além disso, a presença de garrafas de vidro espalhadas pelo local coloca em risco a segurança de visitantes e brigadistas.

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Seguindo o caminho do lixo

Os 12 km do bloco rochoso cortam os cinco municípios. Entre altitudes que variam de 840 a mil 440 metros, escondem-se trilhas coloniais, vales, rios e cachoeiras, que atraem muitos visitantes. As principais trilhas da Serra de São José são a do Mangue, a das Águas Santas, a do Carteiro, a do Bom Despacho, a da Biquinha, a da Bocaina, a do Pico Alto, a de Prados, a da Mãe D’Água, a do Manancial e também a da Estrada Parque.

O são-joanense Leandro Paiva conhece praticamente todas as cachoeiras. “Eu já venho aqui desde moleque”, conta, destacando a beleza da cachoeira do Mangue, “a mais bonita pela água verdinha”. Ele ressalta que a Serra recebe turistas de todo o mundo e percebe que eles são mais conscientes em relação à preservação do local.

Um desses turistas é a intercambista francesa Clara Polder, no Brasil há três meses. “Quando fui à Serra, não tinha lixo. Não havia muita água nas cachoeiras, mas é um lugar muito bonito”. Apesar de achar o lugar bastante agradável, ela percebe a falta de placas que indiquem os caminhos para chegar até as cachoeiras. “Com essas informações, as pessoas que vão pela primeira vez ficariam muito mais seguras, por causa das orientações”, avalia.

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A água da cachoeira, apesar dos alimentos encontrados em alguns pontos, está limpa em sua maioria. – Foto/Dobras e Sobras: Victor Zanola

Segundo o professor Luiz Antônio, devido à circulação intensa de pessoas de moto e de carro, o lugar mais sujo é a Estrada Parque, que vai da estrada de Bichinho até Pinheiro Chagas, uma das rotas mais requisitadas pelos turistas.

Já o lugar mais visitado é a Cachoeira do Bom Despacho, localizada em Santa Cruz de Minas. Por isso, ela merece maior atenção dos voluntários e do poder público. No final de outubro, a Prefeitura de Santa Cruz fez uma limpeza na Cachoeira, retirou o lixo e colocou placas educativas no local.

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Na ação da Prefeitura de Santa Cruz também foram colocadas algumas lixeiras na cachoeira. – Foto/Dobras e Sobras: Victor Zanola

De acordo com  o secretário de Meio Ambiente do município, Danierlon Vieira, essa limpeza é feita em todo início de temporada, período que recebe maior número de visitantes. “Tem a coleta de lixo, que, principalmente nesse período de temporada, a Prefeitura faz quatro vezes na semana”, relata.

Em épocas de menor visitação, a coleta é feita apenas duas vezes por semana. O secretário de Meio Ambiente também explica que a Prefeitura possui um projeto para colocar guardas de segurança e instalar banheiros na Serra.

Além da limpeza na cachoeira, são feitas ações ambientais nas escolas da região, com visita guiada dos alunos à Serra. O professor Luiz Cruz conta que a Superintendência de Ensino está desenvolvendo um projeto para envolver todos os diretores das escolas locais com as questões ambientais da Serra de São José.

A estudante de Biologia da UFSJ, Luana Torres, vê melhorias. “A um tempo atrás, tinha muito mais lixo, mas agora colocaram as plaquinhas educativas e latas de lixo. A gente percebeu menos lixo no local”, comenta. Ela ainda enfatiza que iniciativas voltadas para a educação ambiental em escolas e nos bairros são bastante importantes.

“Mesmo com as placas, as pessoas, quando vêm aqui, deixam muito lixo. Cabe a cada um preservar. As pessoas têm que se conscientizar porque isto aqui é nosso, é de toda a população”, comenta Paulo Ximenes, que frequenta a Serra de São José com a esposa e o filho, há cerca de 20 anos. Apesar de observar que ainda há quem não recolha seu lixo, Paulo percebe mudanças positivas ao longo do tempo, as quais contribuíram para a preservação do local. Antigamente, por exemplo, o som dos carros era muito alto, o que atrapalhava os visitantes, situação que mudou após a instalação de barras que impedem a entrada de veículos.

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A prefeitura de Santa Cruz de Minas colocou placas educativas na Cachoeira. – Foto/Dobras e Sobras: Victor Zanola

Parque ecológico em São João

A Serra do Lenheiro, em São João del-Rei, é composta por uma  vegetação  formada pelo Cerrado e campos de altitude, banhados por nascentes d’água nas partes altas, formando riachos e ribeirões. Espécies de orquídeas são facilmente encontradas no local, o que chama bastante atenção dos visitantes que recolhem a planta sem autorização.

Por meio do Decreto Municipal nº. 2.160/1993 e da Lei nº. 3.356/1998, parte da Serra foi decretada Parque Municipal Ecológico. Com uma área considerada pequena, de aproximadamente 2 mil quilômetros quadrados, o Parque localiza-se nas proximidades do bairro Tijuco. Possui uma área propícia para montanhismo e abriga pinturas rupestres feitas por tribos nômades, há cerca de 6 a 9 mil anos.

Ao contrário da Serra de São José, que perpassa várias cidades do Campo das Vertentes, e por isso tem mais atenção do poder público para a sua preservação, a Serra do Lenheiro se concentra apenas em São João del-Rei. Há poucas iniciativas de preservação, o que aumenta a incidência de lixo, por exemplo.

“Chegamos a colocar uma porteira para impedir a entrada de pessoas que iam para jogar lixo, mas ela foi destruída em pouco tempo, não demorou nem um mês”, relata o professor José Saraiva, do Instituto Federal Sudeste (IFET), membro do Conselho do Parque Ecológico. Também foram colocadas placas de conscientização no local.

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Arte: Maria Luísa Mello

De acordo com Edmilson de Sales, integrante do projeto Sentinelas da Serra do Lenheiro, é importante destacar o trabalho do Conselho de Conservação, Defesa e Desenvolvimento do Meio Ambiente (Codema), do Conselho do Parque Ecológico Serra do Lenheiros e do Conselho do Patrimônio Cultural. Esses órgãos atuam diretamente no combate às agressões ao meio ambiente e na preservação da história de lugares como as Serras.

Segundo Edmilson, um dos problemas enfrentados é que alguns turistas retiram da Serra a arnica, planta utilizada como remédio caseiro para tratar escoriações e dores musculares, por exemplo, de forma incorreta. “Chega a Semana Santa e eles arrancam com a raiz. Nós podemos ensinar a cortar da maneira correta para recuperar de forma natural”, conta.

A prática de ensinar os turistas o modo correto de cortar a planta ainda não está em vigor, mas são planos de Edmilson. Por isso, ele acredita na importância da educação ambiental para visitantes e turistas, realizada pelos conselhos da cidade e órgãos que ajudam na preservação do meio ambiente.

 

Texto/Dobras e Sobras: Rosana Faria e Victor Zanola
Foto/Dobras e Sobras: Victor Zanola
Reportagem na íntegra: dobrasesobras.wordpress.com/

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