Dobram-se as oficinas do Inverno Cultural

Paulo Henrique Caetano, atual pró-reitor de extensão da UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei), nasceu em 1969, na cidade de Belo Horizonte. Toda sua formação acadêmica foi realizada na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), tanto a graduação, licenciatura em Letras (Inglês e Português), quanto o Mestrado em Literatura e Expressões Inglesas e o Doutorado em Linguística aplicada. Desde a infância se vê como professor e nunca se viu fora de sua carreira. No entanto, explica que aceitou o seu cargo atual por contar com um olhar muito aguçado para certas questões da comunidade, uma boa vontade muito grande e humildade perante os desafios. A partir disso, Paulo Caetano, através de sua determinação e competência, executa o planejamento de um grande evento para a cidade de São João Del Rei: o Inverno Cultural, que está em sua 26ª edição.

O Inverno Cultural deste ano tem como tema “Todo lugar é aqui”, e é um evento realizado sempre no mês de julho, desde 1988. É considerado o maior programa de extensão da universidade e propõe uma revitalização e incentivo às manifestações artístico-culturais, além de compor um poderoso repertório, através de oficinas, exposições, lançamentos de livros, seminários, espetáculos de variados gêneros e shows.

Vertentes Agência de Notícias: O que o Inverno Cultural representa para a UFSJ? Qual é sua ligação com o evento como pró-reitor de extensão?
Paulo Henrique Caetano: A minha relação com o evento é que ele é um evento inerente da parte de Pró-Reitoria de Extensão. Ou seja, quem assume essa reitoria sabe que vai ser o coordenador geral do Inverno Cultura, porque o Inverno Cultural é o maior programa extensionista da UFSJ e ele não usa recursos próprios. O evento capta recursos externos e traz pra dentro da universidade. Desenvolve no campo da arte e da cultura uma série de ações muito relacionadas com os projetos que existem dentro da universidade. A gente capta no contexto da cidade quais são as áreas que são mais frágeis do ponto de vista da produção cultural, da gestão do patrimônio, da arte, do artesanato, e capacita melhor a região nesse sentido.

VAN: Quanto tempo antes o evento começa a ser planejado?
PC: O Inverno Cultural tem um planejamento que não termina. Por exemplo, nós estamos hoje já com o Inverno Cultural acontecendo em Ouro Branco, várias ações começando aqui na semana que vem e em Divinópolis, Sete Lagoas, na outra semana. Ao mesmo tempo em que estamos fazendo isso, já temos um pedaço da equipe construindo o projeto do ano que vem. Porque não temos tempo de esperar terminar o Inverno Cultural, começar a ler os editais e submeter os projetos. Então nós dependemos de um financiamento muito grande. A gente não tem um dia do ano em que não tenha o Inverno Cultural como uma parte das preocupações. É engraçado pensar isso, mas apesar de ser um evento de uma quinzena, ele toma todo um ano da nossa atenção aqui.

VAN: Como funciona a seleção de pessoas que estão envolvidas no planejamento do evento?
PC: Tudo nosso, toda a seleção é feita por editais, pela lei 8666, que é a lei das licitações. Não podemos sair escolhendo aleatoriamente. Temos que abrir o edital que é público, uma chamada toda amparada pela lei, que faz com que o direito de acesso a esse evento seja democratizado. As pessoas, então, enviam os materiais, concorrem na época certa, apresentam seus trabalhos e são selecionados, por uma comissão, por critérios de seleção bem objetivos. Nos grandes shows já tem outra forma de se escolher, porque são grupos que já tem notório saber. Milton Nascimento vai cantar e já tem um reconhecimento popular, midiático como artista. Então, temos dentro da universidade a possibilidade, através das leis de incentivo, de contratar essas pessoas diretamente, atendendo as propostas que eles fazem.

VAN: Qual é a área de preparação do evento que demanda mais tempo e disposição? Por quê?
PC: A confecção e a aprovação dos projetos, porque tudo que fazemos tem que ser aprovado por lei federal, lei estadual e em vários editais diferentes. Pra ter uma ideia, tudo nosso depende da lei federal de incentivo a cultura. Nenhuma empresa coloca dinheiro no Inverno Cultural sem que tenhamos aprovado o projeto pela lei federal. Essa empresa vai ter isenção de imposto de renda. Temos planejado o Inverno Cultural há um ano, mas só na semana retrasada que a nossa aprovação do projeto saiu. As pessoas sofrem um pouco porque não há um calendário que um gestor cultural consiga cumprir de fato, porque o financiamento dele depende de forças externas. Mas o planejamento tem que ser todo feito como se tivéssemos dinheiro, é complicado. Vou colocando meu nome e da universidade, fazendo esse compromisso, sempre na expectativa de que o recurso da lei vai chegar. Vivemos uma angústia porque o calendário da lei não é o nosso calendário. Não podemos esperar que as respostas saiam pra que comecemos a agir.

VAN: As áreas mais concorridas para quem pretende participar das oficinas variam de um ano pra outro ou há uma constante?
PC: Geralmente, as oficinas infantis, pela época de férias. Os pais querem dar uma oportunidade de contato com coisas diferentes para as crianças. Essas oficinas esgotam no primeiro dia, na primeira manhã que abrem as vagas. Algumas oficinas mais avançadas que dependem de uma formação um pouco mais aprofundada, geralmente, são menos concorridas por serem mais específicas. Por exemplo, as oficinas no campo de literatura demoram a encher, algumas específicas de determinadas técnicas de arte que, apesar de serem muito importantes, demoram também a preencher. Geralmente, aquelas que lidam com o meio ambiente, como escalada, lotam. Fazemos duas turmas e elas lotam no primeiro dia. Já tem uma demanda, uma fila esperando. Esse ano o sistema todo era informatizado. Eram oito e meia da manhã e as mães ligando para dizer que não estavam conseguindo inscrever seus filhos. Realmente não tinham mais vagas. Em meia hora a oficina acaba, com 20 vagas.

VAN: Qual é o critério de escolha daqueles que irão ministrar as oficinas?
PC: Também por concurso. Da mesma forma que a gente contrata um músico, a gente contrata um professor de oficina, por um edital semelhante. Eu abro um processo de seleção pública e vejo pelas características que apresentam no currículo dele,  avaliamos qual está mais apto a preencher aquela vaga.

VAN: Dentre as categorias já existentes no evento, como são escolhidas as oficinas para fazer parte do Inverno Cultural?
PC: Dessas sete áreas que são: artes cênicas, arte e educação, artes visuais, artes plásticas, literatura, música e especiais, cada área dessas tem um coordenador ou dois, às vezes, em áreas maiores, como teatro e música. Esses coordenadores, juntamente, com a coordenação geral do Inverno Cultural se reúnem em momento específico para ver as ofertas de oficinas que tem. Cada um pontua através de critérios e a gente escolhe, primeiro, pela ordem de pontuação e segundo, pela quantidade de dinheiro que temos para gastar naquela área. Então, se temos dez mil numa área, cabem 10 oficinas. Eu pego as seis primeiras que cabem nesse orçamento e as classifico. Diferente dos vinte e cinco anos de atuação, agora, esse ano, a regra está mais certinha. A gente sofreu pra fazer, mas ano que vem já está tudo arrumadinho. Em Abril do ano que vem, eu já vou estar com o Inverno pronto, prometo e cumpro.

VAN: Como está sendo feita a divulgação do evento?
PC: Está sendo feita ainda um pouco de forma precária, dada a uma série de dificuldades que tivemos de última hora. Mas nós temos uma agência de publicidade que chama Sinal de Fumaça que trabalha conosco junto com a ASCOM, que é a Assessoria de Comunicação da própria universidade. Temos um plano de mídia e contamos com o apoio da TV Integração, da Rede Globo Minas, da TV Minas, da TV Campo de Minas, de várias TVs de Sete Lagoas, Divinópolis e Ouro Branco também, além de TVs menores e emissoras de rádio. Vamos ao longo do tempo cativando a mídia da seguinte forma: temos uma verba para disponibilizar e pagar por uma divulgação especializada, ao mesmo tempo, que contamos com esses grupos midiáticos, que veiculam nossa programação de forma gratuita. Temos uma relação muito boa com a imprensa, porque o Inverno Cultural, queira ou não queira, gera pauta demais.

VAN: A maioria das pessoas que se inscrevem para as oficinas são da cidade ou são de fora?
PC: Tradicionalmente, muito mais gente de fora ou pessoas da cidade que não são ligadas à universidade, porque o público da universidade, geralmente, não está aqui quando o Inverno Cultural acontece. São pessoas que geralmente não tem acesso ao mundo que a universidade constrói e isso é uma das missões do Inverno Cultural: trazer cada vez mais a comunidade para dentro da universidade e cada vez mais conseguir levar a universidade para o espaço da comunidade que geralmente ela não se faz presente. Esse ano, já percebemos um retrato diferente. Tem muitos alunos se inscrevendo em oficinas, competindo com as vagas.

VAN: Existem muitas pessoas que não conseguem participar das oficinas? Há alguma possibilidade de aumentarem as vagas ou a quantidade de oficinas para o próximo ano?
PC: Ano que vem nossa meta é dobrar o número de oficinas. Não fizemos isso esse ano porque nós estamos em concomitância com as aulas, não teríamos espaço físico para realizar as oficinas.

VAN: Existe alguma pesquisa para a escolha das bandas?
PC: É uma pesquisa muito de sensibilidade. Por exemplo, o Milton Nascimento a gente já veio construindo desde o ano passado com um projeto, uma ideia de fazer um show específico, no Inverno Cultural. Então essa foi uma escolha mais tácita. Agora outras, eu, como coordenador geral, tenho um trânsito grande com a música, então eu vou captando, vou escutando nomes, que às vezes nem eu conheço, mas escuto a juventude falar. Vamos tentando captar essas vibrações e em um grupo vamos encontrando os nomes, mas estamos abertos a sugestões de várias naturezas. Tentamos evitar as interferências do mundo econômico, mas as interferências boas e produtivas a gente tenta capitalizar com elas.

VAN: Geralmente, como é o perfil das pessoas que se interessam pelo evento?
PC: São pessoas de diversos tipos. Se for olhar nas pesquisas anteriores, já tivemos uma média de 130 mil pessoas circulando pelos eventos do Inverno Cultural. Tanto as oficinas e como os shows são de natureza diversificada, então não há um perfil mais universitário, ele é menos universitário que qualquer coisa. Agora vai ser diferente, mas tem muita gente mais velha que vem, pessoas que circulam pelo estado procurando programações de qualidade no inverno. Tem gente que já coloca isso no calendário e é muito legal ver isso. E agora nós estamos em quatro cidades ao mesmo tempo, então isso vai gerando uma sinergia. Tem pessoas que vão acompanhar os shows viajando de cidade para cidade. Então o perfil é difícil de mapear. Vamos ter na cidade oito mil pessoas a mais que geralmente não estão aqui. Além de mais quatro mil jovens de fora que vem pra Jornada Mundial da Juventude, entre eles, dois mil estrangeiros. O tempero desse Inverno Cultural ainda iremos experimentar.

VAN: São esperados quantos participantes?
PC: Em São João Del Rei, pelo menos 130 mil, nas cidades ao todo, em torno de 200 mil.

VAN: Das atrações musicais, qual é a mais esperada pelos frequentadores? E qual é mais esperada por você?
PC: Esse ano eu estou com várias expectativas: as bandas Concreto em Divinópolis, que eu curto muito e Matanza, em São João Del Rei. Mas a maior expectativa, o nome maior é o show do Milton Nascimento, porque ele foi feito para o Inverno Cultural, não é um show que sai por aí dando turnê e todo mundo pode ver. A gente quis que o show fosse construído de acordo com os locais. Então, quando o Milton tocar em São João Del Rei, nós vamos ver músicos de São João Del Rei também participando, quando tocar em Divinópolis, com os músicos Divinopolitanos, quando em Sete Lagoas, com os Sete Lagoanos. Para comprovar que todo lugar é aqui, todo mundo faz parte daqui. Nós quisemos dar essa noção de pertencimento.

VAN/ Isabela Fonseca; Lis Maldos
Foto: Kleyton Guilherme

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