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FOTO: Site Mãe do Meu Jeito

Doces ou travessuras?

Nunca fui apegada aos costumes do Halloween. Pode ser que tenha alguma relação com a minha criação. Minha família, sempre muito religiosa, associava a tradição estadunidense com coisas ruins. Eu simplesmente não me importava.

Lembro de ter sempre festinhas produzidas por algumas escolas, e também me recordo de sempre ficar de fora delas. Halloween era um daqueles dias que passavam batido no meu calendário.

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Uma vez, estudei em uma escola no ensino fundamental que promovia um projeto chamado Cultura Brasileira. Nós estudávamos, entre outras coisas, como surgiu essa variedade tão grande que podemos chamar de NOSSA cultura. O folclore, com toda certeza, era uma das partes mais legais de ser estudadas. Nessa escola, o Halloween nunca tinha vez. Já o Saci Pererê, Boto cor de Rosa, Iara…

Eu era a amante do projeto. Estava em todas as apresentações, e minha maior frustração aos 11 anos, foi não ter sido a Iara na peça da escola. Hoje, pensando na próxima festa do Halloween que fui convidada, paro para refletir onde foi parar o meu eu que adorava saber das lendas brasileiras. E o porquê me deixo levar pelas as introduções de outras culturas no meu país.

Não me lembrava que exatamente no dia 31 de outubro, além do Dia das Bruxas, também comemora o dia do Saci Pererê. O nosso Saci. Muita gente nem sequer sabe disso. O Halloween é tão difundido no nosso imaginário, que se torna muito mais comum comemorá-lo do que apreciar algo que seja propriamente brasileiro.

O dia do Saci, é apenas figurativo. Dia 31 de Outubro foi intitulado como dia nacional do folclore brasileiro, personalizado pela figura do nosso amiguinho de uma perna. Foi definido como uma forma de resistência à introdução da cultura estadunidense. Mas, quanto mais o tempo passa, menos as pessoas falam sobre isso.

É legal se fantasiar e curtir toda a monstruosa brincadeira do Halloween, e a bagagem histórica cultural que ele traz também não é de se jogar fora. Mas, por que não falamos sobre o folclore? Por que, assim que crescemos, deixamos de lado a nossa admiração pelas lendas brasileiras?

Existe uma certa exaltação dos movimentos que são estrangeiros, principalmente se for norte-americano. Nos anos 1930, no período entre guerras, os E.U.A. promoveu uma política de boa vizinhança adotando nos países o American Way of Life. – Modo de vida americano, e por americano, entende-se estadunidense. Porém, qual a relação disso com o Halloween? O Brasil, foi um desses países que introduziu cada ano mais os costumes do Tio Sam. Desde o modo de vestir até a cultura local. O Halloween está presente nisso. Com o tempo, ficou cada vez mais difícil definir o que é brasileiro e o que não é.

Falta muito ainda para o Brasil valorizar a sua cultura. Talvez, minha escola fosse essa rara exceção das escolas públicas que promoviam um debate pedagógico sobre o assunto. Ou talvez, essa discussão só ressurge porque eu ainda levo a frustração de não ter sido a Iara com 11 anos… Mas, o importante é saber que para além das fantasias do Halloween, e dos ” Doces ou travessuras?!”, há uma resistência cultural. Há uma linha tênue, na importação dos  costumes, entre apreciá-los à torná-los comuns.

Crescemos. E o folclore foi parar na gaveta com as lembranças da infância. Já o Halloween virou o tema das festas mais cobiçadas do mês de outubro. Admiramos a cultura alheia; esquecemos da nossa.  No entanto, o dia 31 é tudo isso. É o Dia das Bruxas, é o dia do Saci, é o dia para, acima de qualquer coisa, respeitar todas as culturas. E se divertir!

 

TEXTO/VAN: Beatriz Estima

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