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Foto- Sagner Alves

Entrevista com Re Martelli, a primeira tatuadora mulher do Brasil

Em evento que reuniu várias tatuadoras mulheres da região, a convidada Re Martelli concedeu à VAN uma entrevista sobre sua vida e carreira

 

Foto: Sagner Alves
Foto: Sagner Alves

 

Renan Morais Martelli é veterinária e também uma super veterana no ramo das tatuagens. Sendo a primeira mulher a exercer a profissão de tatuadora no Brasil, ela faz parte do corpo docente da Angel’s Tattoo School, importante escola em Campinas que oferece não só cursos profissionalizantes em tatuagem, como bodypiercing e outros. Re Martelli tatua há 19 anos e participou do primeiro encontro de mulheres tatuadoras em Tiradentes, onde nos concedeu uma entrevista especial.

Quando você percebeu que queria entrar no ramo de tatuagens, que até então era dominado só por homens?

Eu já pintava quadros desde os meus 12 anos de idade, aí eu tentava vendê-los numa feira hippie que tem lá em Campinas, mas demorava muito pra vender um quadro. Eu comecei a reparar que, infelizmente, não é toda arte que é valorizada no Brasil. Aqui a tatuagem é uma das poucas artes valorizadas, onde você consegue viver de arte. Então eu fui fazer uma tatuagem pequena em um estúdio, coisa de 15 minutos, o tatuador fez o desenho e conseguiu colocar aquela arte pra sempre na minha pele. Isso me encantou demais, eu falei que queria me tornar tatuadora, aí minha avó e minha mãe me deram um kit e eu acabei entrando pro mundo da tattoo assim.

Qual foi a maior dificuldade que já enfrentou enquanto tatuadora?

Ah, com certeza o preconceito né. Quando comecei tatuar, nenhum tatuador dava dica de nada. Não me deixavam ficar no estúdio olhando eles tatuarem, nada. Eu pedia, às vezes, pra ser faxineira do estúdio, eu falava “eu faço a faxina, aí no final quero aprender a tatuar”, mas não, de jeito nenhum. Eles não falavam onde se compra material, não falavam nada. Eles vendiam assim, gota de tinta sabe, tipo você ia com o batoque¹ lá, eles enchiam seu batoque pra você ir embora. Tanto que veio um kit lá, só com duas agulhas soldadas, eu acabei aprendendo a tatuar só com aqueles modelos de agulhas, eu nem sabia que exisitiam outros modelos. Então eu achei que foi muito preconceito mesmo. Quando eu comecei a tatuar bem, alguns estúdios de tatuagens queriam me contratar pra eu ganhar 20% do que eu fazia, enquanto os homens ganhavam 40. Desde o início eu sempre tive meu estúdio, e aí depois continuei tendo estúdio em sociedade com uma amiga minha, a Fabiana.

¹Pequeno recipiente para depositar a tinta de tatuagem.

Você já sofreu assédio no trabalho?

Não, nunca sofri assédio, ou pelo menos não me lembro de um caso específico. Foi mais preconceito mesmo. Eles não queriam me deixar entrar no ramo já que eu conquistava um mercado muito fácil. Porque aquela mulher que queria tatuar a virilha ou aquele homem ciumento que não queria que nenhum outro homem colocasse a mão na mulher dele, todos vinham pra mim, viravam meus clientes muito fácil. O respeito dos clientes veio bem mais rápido, é lógico que a gente percebe que, até hoje, tem gente que não quer ser tatuado por mulher, por incrível que pareça. Acham que um homem, sendo mais másculo, estaria mais apto aquela função.  Aí eles perguntam “não tem nenhum homem no seu estúdio?” Aí respondo que sim, porque somos sete mulheres e dois homens.

Vejo que você tem muitas tatuagens, é você mesmo que se tatua ou você prefere que outra pessoa faça isso?

Na verdade, como temos a única escola de tatuagem e bodypiercing do Brasil com certificação válida, todas as minhas tatuagens são de alunos. Tenho 67 tatuagens todas feitas por alunos. A primeira tatuagem de cada aluno. Hoje eu não tenho de todos os alunos porque a gente já tem mais de 700 alunos, mas onde foi tendo espaço eu fui deixando eles tatuarem.

Você consegue descrever uma tatuagem, um trabalho que fez e mais te marcou?

Eu acho que as tatuagens que mais marcam são aquelas que tem história por trás. Às vezes uma pessoa vai fazer uma frase porque lembrou da avó, que faleceu. Há um mês eu tatuei uma frase que marcou bastante, foi uma aluna minha que quis tatuar um poema que a avó dela escreveu pra ela três dias antes de falecer, então aquilo me tocou muito, até porque eu também havia perdido minha avó a pouco tempo, e é uma coisa que você sente que tem sentimento envolvido. São as que mais marcam.

Quais são as maiores diferenças entre quando você começou no universo da tatuagem e hoje em dia?

As diferenças variam desde os tipos de trabalho mais solicitados, até o tipo de material que a gente utiliza. Então a época que comecei a tatuar era muito tribal, muito golfinho, muita ilha. Hoje é mais aquarela, eu acho que tem muito mais arte envolvida na tatuagem. As técnicas mudaram muito, foram se aprimorando, os trabalhos também, e assim, tatuagem é de épocas né, uma época é o pontilhismo que está em moda, em outra é aquarelado. Mas eu vejo cada vez mais a arte sendo inserida no mundo da tattoo. Em questão de materiais, quando comecei, não existia nada com registro da Anvisa, as tintas a gente importava ou comprava de fabricação caseira. Hoje existem fábricas, já existem 6 marcas com registro da Anvisa no Brasil, então todas essas marcas podem ser comercializadas, as agulhas já vem esterilizadas, a gente não precisa mais soldar agulha. Mudou muito, facilitou muito pro tatuador, e ao mesmo tempo cresceu muito a arte dentro da tatuagem.

Qual o diferencial e a importância da mulher no universo da tatuagem?

Eu acho que a mulher tem que ter espaço em qualquer lugar da sociedade e não acho que homens e mulheres são cem por cento iguais. Tudo na gente é diferente, então eu acho que homens e mulheres se completam, seja no trabalho ou em qualquer lugar. E eu acho que o papel da mulher na tatuagem é trazer essa leveza de sentimentos que elas podem transcender pra um papel, pra uma pele. Quando eu digo leveza eu quero dizer que a mulher é mais sensível que o homem, então nos trabalhos eu vejo muito mais sentimento e expressão quando é uma mulher tatuando. Mas isso é uma opinião minha.

Quais conselhos você daria para os jovens tatuadores e também aqueles que querem se tornar tatuadores?

Eu acho que primeira coisa, qualquer um que se interesse por qualquer área, tem que procurar um bom profissional e fazer um bom curso. Para tatuagem, aprender principalmente sobre anatomia e fisiologia da pele e biossegurança, porque não adianta desenhar bem se eu não sei o que é epiderme ou se eu não sei a composição da pele. Tatuagem mexe muito com saúde, por isso eu aconselho que procurem um bom curso pra aí sim fazer da tatuagem uma profissão e não um hobby. Então meu conselho pra quem está começando agora é estudar sempre e se aprimorar com responsabilidade.

Texto/VAN: Sagner Alves

Foto do site oficial da escola
Foto do site oficial da escola

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