Esporte vai além de medalhas

Um esporte milenar, que surgiu na Coréia no século 1 a.C., e tinha como objetivo ensinar os jovens a lutar sem armas. O taekwondo tornou-se uma das principais artes marciais e com o tempo, colecionou grandes atletas no mundo inteiro.  Um deles é Cleiton Oliveira – faixa preta do 2º Dan e federado à Federação de Taekwondo do Estado de Minas Gerais (FTEMG).

Professor da modalidade há 12 anos na Academia White Tiger em São João del-Rei, Oliveira fala dos desafios da profissão, do desinteresse político pelo esporte, das polêmicas que envolvem as artes marciais e comenta sobre a ascensão do MMA.

VAN – Cleiton, como você se tornou professor de taekwondo?
Cleiton Oliveira – Aconteceu por acaso. Eu gostava muito da prática do taekwondo, e na minha cidade só tinha um professor na época que se chamava Everaldo Batista Costa. Ele passou na prova da ESA (Escola de Sargento das Armas) e foi ser militar, sargento do exército. Na cidade, na época, eu era um dos mais graduados e ele me sugeriu a dar continuidade no trabalho dele, caso contrário iria acabar. Aqui não tinha nenhum outro professor de taekwondo.  Nem me passava pela cabeça um dia ser professor. Eu sempre gostei de ser atleta, mas professor não. Ele passou na prova, foi pra São Paulo e, nisso, eu pensei: “eu vou ficar pelo menos uns seis meses pra não falar que eu estava de má vontade pra ser um professor de taewondo”. Inicialmente pensei em dar continuidade, mas acreditava que não era minha área: eu gostava apenas de ser atleta. Mas deu tão certo que estou até hoje.

VAN – Sabendo que o taekwondo é uma arte marcial muito conhecida no mundo, tanto que se tornou um esporte olímpico em 2000, qual é a próxima etapa a ser atingida pelos atletas e/ou professores?
Cleiton Oliveira – Como esporte, acho que o taekwondo já chegou aos níveis mais importantes, como as olimpíadas, os jogos mundiais, os jogos pan-americanos. Assim, acredito que já conseguiu o ponto máximo que é chegar às olimpíadas. Agora, como atleta é estar representando seu país em uma olimpíada, acredito que esse seja o sonho maior. Como professor, falo por mim, Cleiton, o sonho de professor não é só formar atleta porque muitas pessoas confundem artes marciais e veem como um esporte que tem que ganhar medalha, mas, como professor, a gente vê de outra forma: a nossa grande vitória não é só formar um campeão, mas formar um cidadão que aprenda a respeitar as outras pessoas, que saiba como conduzir certos problemas, que possa contribuir com bons frutos pra sociedade. Esse é o maior sonho, acho que essa é a maior realização de um professor de artes marciais, que é ver seu aluno se desenvolver e dar bons exemplos pra outras pessoas.

VAN – Como você vê o esporte na cidade de São João del-Rei?
Cleiton Oliveira – Aqui na cidade, eu vejo o taekwondo com muita qualidade de atleta, de interesse dos atletas, mas pouco interesse pela parte política. O que eu quero dizer é que temos muitos atletas que tem nível nacional e até mundial. Eu digo isso porque já competi duas vezes nos campeonatos mundiais no Egito em 2009 e na Colômbia em 2012. A gente tem capacidade de ir mais longe, só que muitos atletas não têm condição de se manterem e há falta de interesse político. Eles não se preocupam com os atletas que possam estar representando a cidade em outros estados, em outros países, em campeonato nacional e em disputa mundiais. Eles não se preocupam muito com isso. Muitas das vezes, temos que tirar do nosso próprio bolso para poder estar participando e nisso perdemos muitos atletas pela condição financeira. Deixa de ser uma revelação por não ter condições financeiras.

VAN – O esporte também é conhecido como arte de defesa. Você acha que o praticante pode usar o que aprende fora da academia em benefício próprio?
Cleiton Oliveira – Como defesa pessoal sim. Acho que até é um direito do praticante de artes marciais. Ele aprende para se defender, mas de forma alguma usar para fim maléfico como agredir uma pessoa, isso jamais. Mas como uma defesa pessoal, uma autodefesa. Contra uma agressão acho até necessário que se defenda, mas nunca atacar alguém.

VAN – Como é feito o trabalho com as crianças?
Cleiton Oliveira – Com relação à criança, você tem que ter uma maneira mais tranquila de trabalhar com ela. Por ser criança, ela gosta de brincar, então, é isso que eu tento passar para elas, apenas movimentos lúdicos, brincando, algo que não tenha compromisso, criança não gosta de compromisso. Ela não aceita isso nessa idade, ela gosta de brincar. Eu tento passar os ensinamentos brincando e, aos poucos, eu vou chegando ao objetivo final que é passar realmente o que elas têm que aprender – as técnicas de defesa, de ataque. Eu utilizo várias brincadeiras lúdicas pra que elas possam se interessar e descobrir por que elas estão fazendo cada coisa, porque elas estão fazendo determinados movimentos.

VAN – Sua academia tem algum representante em campeonatos nacionais? Se sim, como é feita a preparação desses alunos?
Cleiton Oliveira – Tive um aluno que se chama Mycon Ávila. Ele estava disputando o Campeonato Brasileiro Sub-21 de taekwondo que foi seletiva pra seleção brasileira. Ele ficou em 4º lugar. A preparação é feita aqui mesmo na academia: alguns treinos contam com caminhadas na rua e a preparação física que, às vezes precisamos, procuramos amigos que têm academias que nos fornecem um patrocínio, na prática de musculação. Mas, geralmente, são todos os treinos na cidade mesmo. Na cidade de Lavras que nós temos um mestre e vamos para lá treinar com outros atletas, no nível mais alto também, pra forçar mesmo. Afinal, quanto mais alto o nível, mas forte é o treinamento.

VAN – Você acha que a prática desse esporte ajuda a descarregar as tensões do dia a dia ou ele não tem esse propósito?
Cleiton Oliveira – Ajuda demais. Eu digo por mim mesmo. Eu vejo os outros atletas, até pais de família, que estão cansados do trabalho do dia a dia, o stress, a confusão do dia a dia, chega aqui e é o momento de descarregar: “professor vamos lá bater no saco de pancadas para descarregar”. É um dos momentos em que eles mais falam. Mas não descarregar em outra pessoa, mas sim na sua parte física, na parte técnica, na parte de trabalhar com equipamentos, e ai eu acredito que ajuda muito.

VAN– O Taekwondo também tem como técnica a disciplina mental que trás ao praticante autoconfiança para vencer seus adversários. De que maneira essa disciplina é aplicada?
Cleiton Oliveira – No próprio trabalho físico, nós conseguimos trabalhar a mente. Tem certos exercícios que nós temos que ter mais paciência, aprendemos a ter mais calma, e isso já uma forma de trabalhar com a mente. E tem momentos também de concentração, de preparação, e de diálogo, e isso ajuda no condicionamento e na melhora da mente, na busca do foco. Aprendemos a vencer não só os adversários, mas também as dificuldades do nosso dia a dia, cada problema, cada obstáculo, que nós enfrentamos. Aprendemos a controlar melhor a mente, para que a gente não se desanime no primeiro obstáculo que apareça.

VAN – Para que ocorra a mudança de faixas é necessário um tempo. Há um tempo determinado ou isso ocorre dependendo do aluno?
Cleiton Oliveira – Sim, tem um tempo determinado, mas também vai de acordo com a capacidade de cada pessoa. Por exemplo, um iniciante tem uma média de seis meses pra poder se preparar. Dependendo da pessoa, talvez, ele gaste menos tempo, o que já ocorreu. Tiveram pessoas que com quatro meses já estavam preparadas e puderam fazer o exame, como também já tiveram pessoas que demoraram mais um tempo. Tem um tempo previamente determinado, mas ele não é a base de tudo. Depende muito do aluno.

VAN – Dentre os princípios do taekwondo estão, integridade, domínio próprio e espírito indomável. Como você vê esses princípios na construção do caráter do atleta?
Cleiton Oliveira – Acredito que seja fundamental.  Integridade para gente significa honestidade e justiça. Se a pessoa é honesta, se é justa com outras pessoas, ele vai fazer com que as pessoas sejam o mesmo com ela. Acredito que isso é mútuo. Caso você não seja honesto, não seja justo, isso vai refletir em você mesmo. Acho que são princípios fundamentais, em qualquer segmento que você esteja isso é fundamental.  O espírito indomável tem como significado para gente não se entregar ao inimigo. Não só o inimigo físico, ou o adversário, o nosso inimigo maior é nós mesmos. É o cansaço, o desânimo, é achar que não é capaz de atingir, de alcançar ou de fazer alguma coisa. A baixa auto-estima, esse é o nosso inimigo maior. Às vezes, achamos que o nosso inimigo é outra pessoa, outro atleta mais preparado. Porém, o nosso pensamento nos direciona a isso.

VAN – Por que se pratica o juramento Taekwondo?
Cleiton Oliveira – O juramento é pra conscientizar os praticantes do taekwondo sobre suas responsabilidades, sobre seus deveres. Os ensinamentos não são só na parte de chutar e de socar. O taekwondo é mais do que isso: é a educação, é o respeito, a honestidade, a justiça, é dessa forma que vemos o taekwondo. É quando eu respeito e passo a ser respeitado, é quando eu passo bons ensinamentos e vemos bons resultados. As lições morais vêm primeiro. O físico vem depois.

VAN – Para finalizar, como você a ascensão do MMA (Artes Marciais Mistas)?
Cleiton Oliveira – Como esporte, eu acredito que ajuda a engrandecer e difundir muito a arte marcial que, antigamente, era muito discriminada. Depois que o MMA passou a ser difundido, as pessoas passaram a ver com outros olhos. Para algumas pessoas, o MMA é um esporte violento, mas, de qualquer forma, ele trouxe as artes marciais. Muitos atletas do MMA possuem essa disciplina do esporte, mas alguns não. Mas isso em todos os esportes existe. Mas eu vejo pelo lado bom: primeiro para engrandecer o esporte e mostrar uma evolução do nível técnico das lutas também.

VAN/Jéssica Loures e Tailerson Olímpio
Foto: Arquivo pessoal

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