São Caetano: mais que um time de futebol

Tradicional no futebol são joanense, o São Caetano batalha para vencer problemas financeiros e manter seus projetos sociais

Quando, em 1958, Sebastião Otávio de Moura, o “Tião Frangão”, reuniu um grupo de amigos no Tijuco, a pretensão era formar um clube forte que representasse o bairro e competisse com os demais times da cidade. Hoje, mais de cinquenta anos depois, o São Caetano tenta superar as dificuldades financeiras para continuar vivo no cenário esportivo são joanense. Mais que um clube esportivo, a AASC (Associação Atlética São Caetano) tem um grande papel de integração social.

Na época da fundação da Associação, o futebol da cidade era dominado por Athletic e Minas, clubes mais elitizados, e a periferia era deixada de fora das disputas. Com o intuito de poder participar dos torneios municipais, um grupo de amigos se reuniu e fundou o Sport Clube São Caetano, que se tornaria Associação Atlética São Caetano dois anos depois, em 1960. Por muitos anos, o clube foi soberano na segunda divisão municipal (na época, as equipes maiores aspiravam à profissionalização e se reuniam no que era a primeira divisão).

A partir dos anos 1990, a Liga São-joanense de Desportos passou a organizar um campeonato amador mais abrangente, contando com a participação de clubes como o São Caetano. Desde então, a equipe se firmou como uma das principais da cidade. Estes dados estão disponíveis em um vídeo onde Luiz Ezequiel da Silva, um dos fundadores, conta a história da fundação. O vídeo foi gravado por Elídio Alberto da Silva, o Beto, filho de Ezequiel. “Nossa história ainda permanece na oralidade. Pretendo reunir essas histórias e formar um acervo para o clube”, afirma Beto.

Ao longo dos anos, o São Caetano passou a cumprir um papel importante no bairro,  tornando-se mais do que apenas um time de futebol. Diversos projetos sociais já foram realizados nas dependências do clube. “Nosso principal objetivo é afastar as crianças das ruas, do crime”, afirma Everton da Conceição Mendes, o “Dondom”, atual presidente do clube. Mas hoje a realidade é diferente. Sem recursos do Estado e com poucas fontes de renda, a Associação luta para sobreviver. Segundo o presidente, “apenas o aluguel da nossa quadra nos dá algum retorno financeiro e, com ele, pagamos a conta de luz. Fora isso, dependemos da ajuda de parceiros”.

Dondom é prova viva da importância do trabalho social do clube no bairro. Hoje, com 34 anos, o jovem presidente já conviveu com a dura realidade do mundo das drogas. “Já fui viciado em crack, cocaína, cheguei ao fundo do poço. Vi muitos amigos meus serem assassinados do meu lado numa mesa de bar, com o filho nos braços”. A recuperação veio em 2003, após a sua chegada à AASC como atleta. Onze anos depois, agora como presidente, Dondom tenta retribuir o que o clube fez em sua vida. “Quero fazer pelas crianças do bairro o que fizeram por mim. Se, de trezentos garotos que passarem por aqui, eu conseguir recuperar um, meu trabalho já terá sido bem feito”, conclui.

O outro lado da bola


No ano da Copa do Mundo, o futebol se tonou o centro dos debates políticos no Brasil. Segundo o Portal da Copa, site do Governo Federal sobre a Copa do Mundo da FIFA 2014, os gastos públicos destinados à realização do evento totalizaram R$ 25, 6 bilhões. Além da construção de estádios, este valor deveria ser investido em setores básicos da sociedade, tais como segurança, transporte e mobilidade urbana. Deste dinheiro, pouco, ou quase nada, foi destinado à verdadeira função social do esporte. A periferia ainda depende das próprias forças para realização de projetos sociais. O São Caetano é exemplo deste contraste de investimentos. De acordo com Roberto Oliveira, treinador e diretor da AASC, “hoje o clube é praticamente a única referência de centro esportivo no bairro. Temos apenas duas bolas de futebol, às vezes as crianças tem que beber água da torneira depois dos treinos. Com mais apoio do poder público poderíamos atrair mais os jovens para nossas atividades, afastá-los das drogas”, finaliza.

Segundo a Secretaria de Esportes de São João del-Rei, a Prefeitura tem ajudado aos clubes da cidade dentro do possível. De acordo com o sub secretário de esportes Marcio José dos Santos, o “Nenem”, foi posto em votação na Câmara de Vereadores o projeto “Amigos do Esporte”, que visa à isenção fiscal aos clubes, em troca de uma contrapartida social. A partir de sua aprovação, haverá maior parceria entre clubes e prefeitura e os projetos sociais serão mais numerosos.

Texto:VAN/Diego Cabral e Cristiano Giovanni
Foto: Divulgação

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