Público prestigiou obras de vários fotógrafos que tiveram espaço para expor seu trabalho no Foto em Pauta. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)

Foto em Pauta teve início com o fotógrafo colecionista, Joaquim Paiva

Ele apresentou ao público seu trabalho, seus conceitos e suas experiências

O Festival de Fotografia de Tiradentes, Foto em Pauta, foi oficialmente aberto neste dia 22 de março com a presença do fotógrafo e colecionista, Joaquim Paiva. O fotógrafo, conhecido nacionalmente e internacionalmente, dividiu com o público suas experiências e apresentou seu trabalho de fotógrafo, colecionista e autor de diários.

A entrevista foi conduzida pela fotógrafa Anna Kahn, questionando Paiva sobre suas obras e produções artísticas que representam sua vida. Em um vídeo, produzido para o Festival, o fotógrafo abriu as portas de sua casa para apresentar ao público um pouco de seu trabalho, seus conceitos e suas experiências. No vídeo, diversas fotografias espalhadas pela casa, objetos de decoração e grandes diários, escritos por ele, já falavam muito sobre o talento do fotógrafo colecionista e sua paixão pela arte.

O fotógrafo Paiva é conhecido como o maior colecionador privado de fotografia do país, possuindo um acervo riquíssimo que reúne 3,2 mil imagens. Ele afirmou que acredita no potencial e na importância da fotografia autoral e, por isso, busca promover essa arte. Paiva ressaltou, também, a importância de acontecer esses festivais, workshops e exposições, para que o fotógrafo mostre seu trabalho.

Joaquim Paiva mostrou seu trabalho ao público, que esgotou as entradas para prestigiar o fotógrafo e seu trabalho. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)
Joaquim Paiva mostrou seu trabalho ao público, que esgotou as entradas para prestigiar o fotógrafo e seu trabalho. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)

O evento contou com casa cheia no auditório do Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes. Pessoas interessadas por fotografia e fotógrafos prestigiaram Paiva e seu trabalho, como o aposentado José Renato Leite que, após a aposentadoria, escolheu a fotografia como hobbie e já fazem seis anos que a realiza. Leite contou que está participando do Festival pela segunda vez e que se sente instigado ao encontrar bons fotógrafos e novos trabalhos interessantes.

O Festival reúne pessoas de vários lugares e que tem sede por essa arte de fotografar, trocar conhecimentos técnicos e experiências. A funcionária pública, Tainara Botelho, mora em Brasília e veio para Tiradentes pela primeira vez para participar do evento que ficou sabendo pela internet. Botelho disse que não conhecia o fotógrafo, mas que se identificou com ele em vários aspectos da fotografia, passagens do tempo e registros memoriais. Segundo ela, o evento está sendo uma oportunidade para mergulhar mais a fundo na fotografia e se auto-descobrir nos poucos anos em que já fotografa como amadora.

No primeiro dia de festival esteve presente também o fotógrafo José Diniz, que participou de praticamente todos os anos e já teve fotografias suas expostas no evento por três edições. Neste ano, Diniz novamente foi contemplado com um espaço na exposição com três de suas fotografias da série “A Vida Cósmica de Melusina”. Segundo ele, dentro do panorama da Arte Contemporânea do Brasil, o Festival de Tiradentes está muito à frente, sendo conhecido em todo o país e também no exterior.

Trocas valiosas com o público

Na entrevista Joaquim falou bastante sobre seu trabalho como fotógrafo, realizado durante os períodos que viveu em brasília. Ele faz uma análise descontraída sobre o livro Foto na Hora: Lembranças de Brasília. O livro com aproximadamente 300 fotos, contém imagens das casas dos trabalhadores que construíram Brasília, da piscina pública, dos passeios aos finais de semana e contém até uma série de retratos, atrás das barracas de uma feira de artesanatos.

Ele comenta que nunca teve a intenção de fotografar uma Brasília monumental ou focar no contexto político do local. Ao invés de dar ênfase ao palácio central, ele fotografou os ipês que florescem ao redor do local. Fotografou também os céus brasilienses que, segundo ele, são os céus mais lindos do mundo.

Em seguida, Joaquim mostrou algumas páginas de seus 128 diários, escritos durante 29 anos. Ele enxerga os diários como relatos internos de vida e os preenche com aquilo que o inspira ou possui algum valor sentimental: frases, poesias, nomes de perfume, fotos de documentos, fotos de família.

Joaquim Paiva abre as páginas de seus diários para o público no Foto em Pauta. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)
Joaquim Paiva abre as páginas de seus diários para o público no Foto em Pauta. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)

Por último, ele falou sobre a experiência como colecionista, disse que começou sem intenção alguma de fazer uma coleção, que nunca teve uma curadoria e nunca ganhou dinheiro com isso. Fez tudo por paixão. E hoje, ele possui um acervo de imagens enorme, sendo considerado por muitos o maior colecionador privado de fotografia do país.

Na sua coleção estão nomes como Eduardo Khalifa, Luís Delgado, Pedro Muller, Thiago Santana, algumas obras de Sebastião Salgado – do início de Carreira. Fotografias com as mais variadas técnicas e direcionamentos: retratos, montagens, imagens construídas com geleia, fotografias da guerra do Vietnã, dos bailes funks no Rio de Janeiro e de traficantes colombianos.

Joaquim Paiva: Fotógrafo, Colecionador e Autor de diários

Quem coleciona algo, seleciona calmamente, organiza com atenção, guarda com cautela, troca e negocia, mas expõe e exibe também. É aquilo que se conquista e zela com muito amor. Os objetos, divididos por categorias, são prezados pelo seu valor sentimental e de interesse pessoal.

Coleções se fazem dos mais diversos objetos: selos, cartões, botões, adesivos, boneca… e também, de fotografia! Aquela figura estampada em um papel e que não volta mais, que assim que realizada, se torna passado. A fotografia retrata imagens do olho de quem vê, no ângulo de quem produz, no momento exato que se posiciona, focaliza e registra.

Com os mais diversos tipos de câmeras fotográficas em diferentes épocas, do antigo Daguerreótipo a Kodak, Polaroid, Sputnik, Pentax e as mais atuais máquinas digitais, profissionais e smartphones, as fotografias se apresentam nos mais diversos suportes, com negativos, papel fosco, papel brilhante, papel de fibra… não importa. A fotografia continua cada vez mais presente para registrar momentos, marcar encontros, lembrar de quem já se foi e fazer feliz quem aprecia essa arte.

Uma prática que ganha cada vez mais espaço, seja como hobbie, com trabalhos amadores, ou como trabalho profissional, com fotos vislumbradas e criadas por verdadeiros artistas. Nas mais variadas luzes, sombras, contrastes e cores, a fotografia revela imagens, conta histórias e captura momentos,.

Joaquim Paiva sabe o que é isso: olhar, criar, registrar e, também, colecionar. Nascido em 1946 em Vitória, Espírito Santo, ele já foi diplomata e desde 1970 é fotógrafo, além de colecionista desde 1978. Paiva revela que seu primeiro contato com a fotografia já acontecia na infância, quando pedia à sua mãe para lhe mostrar a fotografia de seu pai, já falecido. Dessa forma, ele conta que foi exposto a fotografia de uma maneira ligada à essa perda e de uma maneira muita emotiva. “Depois disso, eu nunca parei. Eu nunca parei de fazer fotografia”, exclama Paiva.

Para ele todo fotógrafo é um artista, ainda que não saiba disso. E acredita que o que realmente vale em uma fotografia é a maneira com que o artista se envolve e mostra a imagem. Paiva também faz uma comparação entre a arte de fotografar dos anos 70 e 80 com os dias atuais e comenta que hoje em dia o mundo está excessivamente colorido e ficou bem mais difícil fotografar pessoas nas ruas.

Joaquim Paiva mostrou seu trabalho ao público, que esgotou as entradas para prestigiar o fotógrafo e seu trabalho. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)
Joaquim Paiva mostrou seu trabalho ao público, que esgotou as entradas para prestigiar o fotógrafo e seu trabalho. (Foto: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente/VAN)

Segundo ele, seu trabalho como fotógrafo reflete suas experiências: nos lugares onde morou, nas pessoas que passaram por sua vida e em partes de seus diários, cadernos que registra pensamentos, ideias, frases, objetos e inspirações. Pelas páginas do diário Paiva expressa também a liquidez do tempo, com frases como “O tempo é alfinete” , “I died every day” e a “Morte é o futuro”.

Seu interesse por colecionar fotografias veio enquanto morava na Venezuela, o peso da distância era muito forte e ele se considerava um exilado. Por esse motivo, Paiva passou a enxergar melhor o Brasil e cresceu dentro dele uma vontade de realizar algo em termos de arte para seu país. Ele disse ter percebido que o Brasil tinha uma boa ligação com a profissão de fotógrafo e com o fotojornalismo e, a partir daí, se tornou de fato um colecionador.

Como colecionista, Paiva explica que seleciona as obras de eventos nacionais e internacionais, onde busca obras nos portfólios dos fotógrafos. O fotógrafo disse que sua coleção se tornou uma referência nacional no Brasil e acredita ter sido fruto de muito conhecimento, trabalho e liberdade de suas escolhas.
TEXTO/VAN: Scarlet Freitas e Vanessa Vicente

 

 

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