Memórias do mestre da arte sacra de Resende Costa

Mariana
Fernandes                             
05 de abril de 2012 | De Resende Costa 
Foto: Mariana Fernandes
 Ao início do mês de abril, as pequenas cidades mineiras entram em um clima místico, sendo cercadas de silêncio, reflexão e atos de fé. A devoção católica durante a Semana Santa move e comove os moradores da região das Vertentes. Procissões, cânticos sacros, abstinências e admiradores das belas esculturas em madeira são vistos pelas ruas das cidades. Em Resende Costa, as esculturas do falecido Valcides Mairinque Arvelos ainda compõem o cenário deste importante período do calendário religioso. Um orgulho para os moradores da cidade, que o têm como um exemplo de artista autoditada, com peças inclusive no Vaticano.
Mestre de ofício, autodidata, Valcides Mairinque aprendeu a desenvolver desenhos e esculturas em madeira fazendo brinquedos. Isso é o que conta sua irmã, Ana Rita Mairinque. “Ele ficou conhecido nos anos 70 como santeiro, mas começou muito antes, fazendo passarinhos e carrinhos para crianças. Valcides esculpiu o primeiro santo após uma visita a São João del-Rei, onde, através de um santinho, ele conseguiu reproduzir a imagem de um Senhor dos Passos”. 
Após a primeira escultura, Valcides não parou mais de receber encomendas de religiosos e colecionadores de arte sacra. Em 1972, o artista ganhou as páginas da revista Veja com a escultura de São Francisco de Assis. A matéria intitulada “Visões Esculpidas” trazia a história de um homem humilde que aprendeu o ofício nobre sem qualquer influência acadêmica. Ana Rita conta que ele sempre ressaltava sua autenticidade, dizendo que o trabalho não sairia como o encomendado, mas conforme a sua inspiração. 
Valcides esculpiu diversos santos, mas um em especial está exposto no Museu Paroquial de Nossa Senhora da Penha de França, em Resende Costa. A escultura da padroeira da cidade tem, segundo o seminarista Adriano Melo de Oliveira, um valor artístico e cultural muito grande para a história local. “Temos esculturas de um filho desta terra, que é o mais valioso. A imagem da padroeira saía em procissões e na zona rural e, hoje, ela faz parte do arquivo do museu, para mostrar o talento deste artista e o quanto ele contribuiu para a devoção e a religiosidade da própria cidade onde viveu”, comenta Adriano. 
Valcides faleceu no dia 2 de agosto de 2008, aos 81 anos, sem possuir bens. Ana Rita conta que, durante 3 anos, ele ficou de cama, pois adoeceu após um derrame. Mas, segundo ela, não deixou de trabalhar e passar por dificuldades. “A última obra que o Valcides fez foi um São Bento, encomendado por um turista, mas não ficou perfeita, porque ele já estava doente. O dono da obra não quis levar, deixou pra ver se ele consertava, mas não teve mais tempo. Foi uma perda enorme”, conta Ana Rita. 
Esse escultor autodidata deve ser lembrado, em especial por ocasião da Semana Santa, pelos seus conterrâneos como um artista que representa a força da cultura local. A Semana Santa, em Minas Gerais, tem grande importância histórica e revela a identidade cultural do Estado. São muitos os mestres de ofício que se dedicam à arte sacra, esculpem madeiras não apenas para sobreviver de seus talentos natos, mas porque vivenciam e acreditam na fé religiosa que os move. Valcides Mairinque Arvelos foi um homem simples, que viveu em Resende Costa e que é aqui lembrado, por mérito, como um artista local que não deixou nada a desejar para os grandes escultores de correntes acadêmicas.

One thought to “Memórias do mestre da arte sacra de Resende Costa”

  1. Valcides, é do tronco genealógico de minha avó (lado paterno), Delfina Maria de Lima(1907/1977),natural de Rezende Costa, e, com origem no portuguez: Pedro Rodrigues Arvellos (natural de Sesimbra), que foi proprietário da “Fazenda da Glória” vizinha de Ritápolis,por volta de 1765.

Deixe uma resposta