Móbiles de Areia: valorização e divulgação da literatura em Minas Gerais

      Compartilhando as festividades dos 100 anos de emancipação política da cidade de Resende Costa, a Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa (AMIRCO) lançará o 3º livro da Coleção Lageana, intitulado Móbiles de areia, do já premiado poeta resende-costense Evaldo Balbino. O evento, que conta com o apoio da Prefeitura Municipal, vai acontecer no dia 22 de junho, às 20h, no Centro Pastoral Paroquial (CPP), em Resende Costa. A entrada é franca e o livro será vendido a R$10.

      A publicação tem o patrocínio do Fundo Estadual de Cultura (FEC). Para a idealizadora do projeto Coleção Lageana, duas vezes aprovado pelo FEC, Elaine Martins, a edição do livro de Evaldo será mais que um presente para Resende Costa e para os resende-costenses: “A publicação de Móbiles de areia pela Coleção Lageana representa o reconhecimento e reforço do laço entre Evaldo e a sua terra, pois essa origem atravessa a sua vida e a sua literatura. Essa publicação representa ainda um incentivo e valorização da literatura de jovens escritores produzida em Minas. É uma das formas de democratização do acesso à literatura de qualidade que, no caso, é a prosa refinadamente poética de Balbino”.
Ávida Palavra
      Em Móbiles de areia, Evaldo Balbino tece 33 crônicas nas quais, entre memórias e palavras, borda seu passado e o de outros, nos tempos da pequena cidade, tempos que ainda se fazem presentes. Segundo o autor, essa publicação será sua estréia no universo da prosa, da crônica.
      Dos 33 textos que compõem o livro, quatro são inéditos e os outros 29 já foram publicados. A seleção das crônicas, que passaram por mudanças, foi feita pelo próprio autor e revela uma forte simbologia que cristaliza a presença do sagrado e da memória na sua produção literária.
      A crônica de abertura, “Ávida Palavra”, funciona como uma espécie de prólogo literário do livro. Revisitando a tradição grega, o autor evoca a palavra, escrita e falada, cantando-a como um rapsodo que se vale da memória, mas não a memória ideal cuja morte foi decretada por Platão. Esta é contestada porque as palavras, depois de ouvidas e olvidas, moldadas pelas mãos feito barro e enraizadas no papel, são memórias em potencial e pulsam no autor, para quem “falar é lutar contra a morte”.
      Os textos de Balbino são tecidos em prosa-poética, permeados por imagens, lugares da memória e objetos biográficos e atravessados pela humildade.O autor recria experiências, lugares, causos e cousas em meio a reflexões. Com uma linguagem refinadamente poética, ele dialoga com os seus poetas, escritores e filósofos e com os leitores. Fala da efemeridade da vida.
      Outras crônicas do livro: “A boa morte”; “Piteiras e emplastros”; “Por quem os sinos dobram”; “As geografias desnorteadas”; “Móbiles de areia”, “Leituras de Teotônio”; “Palavras a uma jovem”; “O pintor”; “Álbum de fotografias”; “O menino e as chinelas do menino”; “A aranha e as paredes”; “O presente”; “As mãos de minha mãe”; “Raimundo Mundo”; “Em preto e branco”; “As grandes miudezas”; “Crônica de Natal”; “O bolo sem graça”; “No armarinho da memória”; “A missa e o homicídio”; “A amante”; “O cavalo de três pernas”; “O palhaço”; “Relembranças”; “Estátuas aéreas”; “Crônica de um educador”; “Catar feijão”; “A esposa esbelta”; “Declaração de amor”; “Promessa é dívida”.
      Sua última crônica, “Ao rés-do-chão”, retoma de certo modo a primeira crônica e reforça uma das grandes marcas do autor: a humildade. A palavra bruta moldada no moinho da criação poética e tudo o que perpassa o livro é reafirmado.
      O intuito dos cronistas e da crônica, segundo o grande crítico Antonio Candido, “não é o dos escritores que pensam em ‘ficar’, isto é, permanecer na lembrança e na admiração da posteridade; e a sua perspectiva não é a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés-do-chão. Por isso mesmo, consegue quase sem querer transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um; e, quando passa do jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava, talvez como prêmio por ser tão despretensiosa, insinuante e reveladora.” Assim são Evaldo Balbino e as suas crônicas, os seus móbiles de areia.
Entrevista com o autor
1. Quando você começou a escrever?
      Comecei a escrever em torno dos meus 15 anos. Escrever com pretensão de fazer literatura. E comecei a publicar em antologias, via concursos, aos 17 anos.
2. A sua formação escolar é voltada para o mundo das letras e da literatura. Haveria um entrelugar entre o crítico e o autor (poeta, escritor)? Qual a relação entre o ler e fazer literatura?
      Fazer literatura tem que ser resultado de ler literatura. Muitas vezes alunos meus, de Letras, diziam que adoravam escrever e não gostavam de ler. Isso, para mim, é impossível. Eu só escrevo a escrita dos outros. Em outras palavras, e tentando dizer disso que é tão difícil de ser dito, eu reescrevo o que outros já disseram. Reescrevo a meu modo. Nada nasce do nada. Não existe geração espontânea. Quanto aos meus dois papéis, o de crítico e o de escritor, penso que um trabalho suplementa o outro. Uso aqui o conceito de suplemento de Derrida. Não falo de complemento. Complementar é acrescentar algo a um todo, contribuindo para sua constituição. Já suplementar é trazer algo a mais que desestabiliza o suposto todo já existente. Assim, ao fazer literatura, vou para além das amarras que o crítico que existe em mim mesmo me coloca. Não quero dizer que escrevo sem aparatos críticos. Todo poeta, todo escritor, tem aparatos críticos. E tem isso porque é leitor. Leitor aberto, amplo, e não preso apenas a textos teóricos. O problema, a meu ver, é quando o artista se prende muito a uma formação acadêmica e acaba por fazer uma arte somente para iniciados. Ou seja, temos aí escritores escrevendo apenas para seus pares. O aparato crítico, que paulatinamente adquiro, me ajuda a escrever literatura, mas a literatura não deve, na minha humilde opinião, estar a serviço da crítica. É ela, a crítica, quem deve buscar a literatura e se produzir a partir dela.
3. Em um de seus escritos você afirma que “escrever é lutar contra a morte”. Que relação é essa?
      Isso já foi dito aos quatro ventos do mundo desde que a humanidade se deparou com o silêncio da morte, teve consciência disso. O que nos amedronta deve ser exorcizado, ou melhor, deve ser chamado, evocado para as nossas vidas, para fazer parte delas, para tornar-se também vida. Numa perspectiva puramente material, sem levar em conta as crenças no plano espiritual em que eu acredito piamente, eu lanço mão da linguagem – dessa beleza que o humano criou – para falar, falar e falar. Falar antes que o Grande Silêncio tome conta do meu corpo. Porque nada sei do outro mundo. Ou sei pouco. Então não tenho garantias do que me será possível após a morte.
4. A sua produção em versos (Moinho, Filhos da pedra) é maior que a produção em prosa, por enquanto. Como se dá esse salto entre a verso e a prosa?
      Creio que não faço muito esse salto. De fato, de tudo o que já escrevi até hoje (e tenho mais livros no prelo, que sairão logo se Deus quiser), tenho feito mais poemas do que prosa. Prefiro a distinção entre poema e prosa. Assim, o que posso dizer é que tenho escrito mais na forma de versos do que na forma de parágrafos. Já a poesia, a poiesis grega, o fazer poético, essa poesia está em quase tudo o que escrevo. Até mesmo nos meus textos de crítica literária eu me permito os voos da linguagem poética. Minhas crônicas, por exemplo, são atravessadas por imagens poéticas, por poesia. Só consigo escrever assim. A diferença é que, quando faço versos, busco uma linguagem mais contida, às vezes supostamente mais contida.
5. A crônica, como a entendemos hoje, requer um exercício que, no seu caso, é mensal. Como começou e é a sua relação com esse gênero literário?
      Sempre tive medo de praticar a crônica. Como ainda tenho medo de escrever, por exemplo, uma peça de teatro. Imagine você, colocar personagens em ação sem a fala tagarela de um narrador? Eu sou escravo dos narradores, os que falam, os que contam, os que erigem mundos. Não consigo trilhar a literatura sem eles. E eu tinha medo de tentar a escrita de uma crônica, e sair tudo, menos uma crônica. Vê-se que eu estava, nesse tempo, preso a uma rigidez desnecessária. Comecei a praticar a crônica – esse gênero tão fluido como todos os gêneros –, e comecei a fazê-lo mais sistematicamente (em média uma por mês), a partir de 2009, quando me tornei colunista do Jornal das Lajes. Escrever crônicas tem sido para mim um grande exercício, uma lenta aprendizagem no terreno da prosa, um acurado e paulatino caminhar nos meandros das construções de narradores, espaços e personagens. Tenho aprendido muito com tudo isso.
6. O que o leitor encontrará eu seu Móbiles de areia?
      Espero que encontre, antes de tudo, poesia e prazer. Poesia, porque sem ela não há criação literária. E sem arte não há prazer. Falo aqui de prazer, mas não no sentido de uma autoajuda, de um texto lindo, que me leva às alturas, que me tira os pés do chão, para além da realidade. Muito antes pelo contrário: falo do prazer de abrirmos os olhos, de encararmos a vida, as dores, as alegrias, os problemas e as flores. A literatura nos dá um chão para pisar, mas um chão desestabilizado, cheio de espinhos. Pois, para mim, toda literatura – toda boa literatura – é realista e, como tal, nos arranca para a realidade e nos faz, de certo modo, sofrer. Falo, então, aqui, de gozo, no sentido usado por Barthes. E não de um prazer como puro passatempo. Gozar a/na literatura é estar antenado com a vida e com tudo o que lhe diz respeito.
7. Hoje você vive em um grande centro. O que significa para você publicar um livro na sua cidade natal, por uma editora não comercial?
      Publicar meus livros em minha cidade natal foi, é e sempre será minha maior e primeira meta. Independentemente de onde for a editora, sempre farei questão de lançar meus livros em Resende Costa. Tenho carinho pela cidade. Um carinho retorcido, muitos poderão dizer. Mas esse meu jeito meio enviesado não é por mal. É meu jeito de ser e de estar antenado com o mundo, com suas virtudes e com seus problemas, e também com minhas virtudes e com meus problemas. Não somos perfeitos, não é verdade? A meu modo, eu amo Resende Costa. Falemos agora da AMIRCO. Não me preocupa publicar por uma editora não comercial. Todo escritor, que de fato escreve por necessidade psíquico-espiritual e que tem nas palavras o seu ar, é vítima do mercado. O mercado é forte, impávido, insensível. E nem sempre, sabemos, o que está “bombando” no mercado ou na mídia é o que há de melhor. Primo pela qualidade. Como já dizia Paulo Leminski, é melhor ser lido muitas vezes por poucos do que poucas vezes por muitos.
8. O que é ser poeta e escritor hoje (em Minas Gerais, no Brasil e no mundo)?
      Ser poeta e escritor no mundo é, cada vez mais, remar contra uma forte corrente. Os gostos cada vez mais se têm afastado da leitura. O hábito de ler bons textos, e fazê-lo de modo atento e ruminante, sempre foi mania de poucos. Isso não é de hoje. Camões, por exemplo, já carpia no seu monumental Os Lusíadas a desvalorização a que o poeta/escritor é relegado na sua própria cultura. Eu sei que cada vez mais pessoas têm lido. Entretanto, no grande universo de pessoas do nosso mundo, pouquíssimas são as que leem literatura. Isso é muito evidente hoje. Com a suposta democratização do ensino e das culturas, muito mais pessoas têm sido supostamente letradas. No entanto, resta saber o que leem, como leem e se de fato dão valor à literatura que, se não é a Grande Arte – pois isso seria uma ilusão – não deixa de ser arte, manifestação cultural. E todo povo, penso, tem que valorizar as diferentes manifestações culturais que se dão no seu meio, inclusive a literatura. Mas nada de lamento: sempre houve e sempre haverá, enquanto houver seres humanos na Terra, aqueles, mesmo que poucos, amantes da poesia, da literatura.
Coleção Lageana
      A Coleção Lageana é um programa editorial instituído pela AMIRCO em 2009. Tem como objetivo a publicação de obras referentes à história e à cultura de Resende Costa e de sua região. O nome “lageana” é uma referência histórico-geográfica ao antigo “Arraial da Lage”, nascido em meados do século 18. Ao se emancipar em 1912, a vila tornou-se a cidade de Resende Costa, em homenagem aos seus dois inconfidentes José de Resende Costa, pai e filho.
      A Lageana foi idealizada por Elaine A. Martins, que também é uma de suas coordenadoras, e criada por meio de um projeto apresentado e aprovado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais por meio do Fundo Estadual de Cultura (FEC).
      A AMIRCO, com o patrocínio do Fundo Estadual de Cultura (FEC), por meio da aprovação de um segundo projeto, publica agora o terceiro livro da Coleção Lageana, Móbiles de areia, de Evaldo Balbino, como parte das celebrações do centenário da emancipação de Resende Costa.
      Contribuição: Elaine Martins.
      Foto 1: Divulgação.
      Imagem 2: Ilustrativa.
Para copiar e reproduzir qualquer conteúdo da VAN, envie um e-mail para vanufsj@gmail.com, solicitando a reportagem desejada. É simples e gratuito.

Deixe uma resposta