O paradoxo entre o tradicional e a vida “moderna”

São João del-Rei, conhecida pelo seu acervo cultural e costumes tradicionais, é sede da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Recebe jovens estudantes das diversas regiões do país que trazem consigo diferentes bagagens culturais e costumes.

A cada ano, a UFSJ oferece aproximadamente 1500 vagas para cursos de graduação na cidade. Isso traz para o município um grande potencial de miscigenação culturológica. Porém, o aumento de jovens imigrantes tão diversificados pode causar certo desconforto para a população mais antiga, que testemunhou as vicissitudes que transformaram o cotidiano da cidade.

Regina Célia Nunes, que há 17 anos recebe estudantes como hóspedes em sua casa, sente-se honrada em ter criado seus filhos na cidade são joanense, mas diz ter notado que a cada geração que passa, percebe a diferença de comportamentos dessa nova juventude que vem pra cidade estudar e que, portanto, é preciso ter cautela. Regina afirma: “Tem que saber ‘curtir’ pois os valores morais são bem aguçados aqui. Em São João del-Rei acontecem coisas que até Deus duvida”.

Segundo Regina, o estilo de vida de estudantes é associado à boemia, inconscientemente justificado por estarem curtindo os prazeres permitidos pela fase adulta. Muitos estudantes em São João del-Rei, desfrutam da sensação de liberdade proporcionada pelo fato de viverem longe de seu lar, da família, sem ter que se preocupar com o comportamento exigido por estes, e acabam, porém, “extrapolando”. Antônio Carlos Maia (27), estudante de Engenharia Mecânica, defende: “todo mundo bebe uai, só que a gente bebe mais”, brinca.

Os estudantes ainda estabelecem entre si a política de trotes que, mesmo proibida por lei (Art 1º da Lei n° 4.779 de Maio de 2012), são praticadas nas vias públicas do município. Regina Reis de Carvalho (40) diz achar interessante passar por todas as fases da faculdade, e completa: “se fosse eu, também participaria”. Em relação às festas universitárias, Regina diz não se opor, mas admite que se vê pessoas passando mal na porta das casas e as vezes jogam “vasilhames” nas ruas, mas atribui a culpa deste à organização das festas e não aos estudantes. Ela ainda acredita que estes ajudaram na ampliação de maior variedade de serviços. Segundo ela, hoje existem mais opções de restaurantes, por exemplo, para atender a maior demanda de pessoas na cidade.

Nara Mendonça Resende (26), proprietária de uma sanduicheria na cidade, admite que os estudantes sejam um dos maiores contribuintes do seu negócio. Nara recorda a greve ocorrida em 2012, que durou quatro meses, e diz ter tido uma queda de 50% em suas vendas, que chegam a 400 sanduíches apenas nos finais de semana. Sobre trotes, ela diz não ser a favor: “é muito mais interessante fazer um trote solidário- como doar alimentos- do que qualquer prática que possa ferir a moral de uma pessoa”.

Luiz Guilherme Ambrósio (21), que estuda Química e mora em uma república da cidade, defende o trote como uma forma de se tornar mais íntimo de seus veteranos. Luiz Guilherme acredita que morar em república ainda ajuda a superar a distância de casa: “morando em república você sempre vai ter com quem conversar e, querendo ou não, o pessoal da república são os seus primeiros amigos”. Ele finaliza admitindo que a “bebedeira” pode causar uma má impressão dos estudantes na cidade, mas que isso não necessariamente influencia a formação moral de crianças ou adolescentes são-joanenses, porque “cabe aos pais a educação dos filhos”.

Texto: VAN/ Jederson Lucas
Foto: Marcinho Lima

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