Ofício de Trevas marca mais uma Semana Santa de São João del-Rei

A cidade é a única na América Latina  que ainda mantêm a celebração em sua totalidade, ou seja, em três dias: Quarta-Feira Santa, Sexta-Feira da Paixão e Sábado Santo

 

Na noite da última Quarta-Feira (28), dezenas de fiés concentraram-se na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, no centro histórico de São João del-Rei, para mais uma celebração do Ofício de Trevas. Entoada em latim e presidida pelo bispo emérito Don Valdemar Chaves de Araújo a solenidade iniciou-se por volta das 19h. O ato também foi acompanhado pela Orquestra Ribeiro Bastos que executou responsórios e laudes compostas pelo falecido Padre José Maria Xavier, alternando com o Coro Gregoriano que entoou os salmos e lamentações.

Apesar do nome que pode trazer a ideia de um rito obscuro e enigmático, o ofício de Trevas mostra os sofrimentos de Jesus Cristo antes de sua morte, sendo um momento cheio de simbolismos e significados. Acompanha a celebração um tenebrário, candelabro de forma triangular com quinze velas, dispostas escalonadamente. Suas velas vão sendo apagadas ao final de cada canto, até o momento em que resta apenas a vela do vértice, a central, acesa. Essa vela representa Jesus Cristo como luz do mundo, que nunca se apaga.

Quando a vela é escondida atrás do altar, todas as luzes da igreja são apagadas. É o momento das trevas, no qual os fiéis batem com os pés fortemente no assoalho, causando um grande estrondo. Esse ato representa a breve retirada de Jesus do meio dos homens. Em seguida, as luzes da catedral são novamente acesas anunciando que Cristo ressuscitou e as trevas não mais tomam conta do recinto.

O pároco da matriz Nossa Senhora do Pilar há sete anos, Padre Geraldo Magela, atesta que o “Ápice do Ofício, não está nas trevas, mas na luz” e explica como toda a liturgia das celebrações e a contemplação da entrega e vitória de Jesus enche os fiéis de esperança. “Nós não estamos celebrando o passado. Nós celebramos o mistério, e o mistério toca-nos até hoje.” declara.

Don Valdemar Chaves de Araújo, com 53 anos de devoção à Igreja, bispo há 28 deles, afirma que o Ofício é um momento de meditação. “Reflete o sofrimento, a paixão e morte de Cristo para salvar toda a humanidade. O nome “Trevas” é devido ao sofrimento que ele teve na cruz para nos purificar.” explica.

Jorge Arnaldo do Nascimento, historiador e diretor do Museu Municipal de Barbacena, afirma que “A Semana Santa é um grande teatro sacro” e que apenas aqueles que não têm sensibilidade argumentam que toda a ritualística é coisa do passado. “Acho que o Ofício de Trevas em São João é uma das cerimônias mais bonitas e genuínas da cidade. Não apenas pela função do culto, mas porque resgata uma tradição da Igreja há muito tempo abolida nas outras regiões de Minas Gerais e do país.”; salienta.

Há 6 anos regendo a Orquestra Ribeiro Bastos na Semana Santa, o maestro Rodrigo Sampaio atua no catolicismo há 26 anos. O coordenador da orquestra foi coroinha aos 11 anos de idade e com satisfação explica a preparação dos músicas para a data. “O coro canta há anos e o repertório do Ofício é cantado durante toda a quaresma, então ensaiamos pouco, porque tenho uma orquestra madura. Nós tocamos aqui, porque está tudo relacionado.  A arquitetura, o momento. É lindo!” declara cheio de admiração.

A Semana Santa de São João del-Rei ainda contará com algumas particularidades como o lava pés realizado externamente à catedral e não junto a missa, a Procissão do Enterro após o Descendimento da Cruz e o encerramento do Domingo de Páscoa com a retirada das sete espadas da imagem de Nossa Senhora das Dores, pelo Bispo. A programação completa de cada uma das igrejas da cidade e região pode ser conferida pelo site:  https://goo.gl/TKJuKK

Texto/VAN: Yasmim Nascimento
Fotos/VAN: Isabela Souza, Yasmim Nascimento
Colaboração: Filipe Reno, Isadora Jales, Rafael Nascimento, Samara Santos
Artes/VAN: Ícaro Chaves

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