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Os novos trens de Minas

Associação em Lavras entrega trecho restaurado de linha ferroviária até o fim do ano

 Um dos maiores ícones de Minas Gerais sempre foi, e continua sendo, o trem de ferro. O transporte ferroviário teve, ao longo da história mineira, a função principal de levar nossas riquezas até portos no Oceano Atlântico, principalmente os da Bahia. Mas não era só de comércio que o trem sobrevivia: entre viagens turísticas e mudanças definitivas de endereço, o trem marcou toda uma geração,  que via nele seu projeto de vida, seus encontros e despedidas rotineiros.

Estação de Lavras, década de 1940.
Estação de Lavras, década de 1940.

Entre as principais linhas de Minas Gerais, estava a estrada de ferro Bahia e Minas (EFBM), inaugurada em 1881, após sanção da Lei Imperial, levando madeira e café ao o porto em Caravelas (BA) até 1966, quando foi extinta.

O aposentado José Muniz, nascido em Ladainha, hoje residente em Lavras e funcionário durante mais de uma década da EFBM, conta que na época os trabalhadores se consideravam uma família, pois foram muitos anos juntos. “Se o trem voltasse ia ser bom. Hoje temos que tolerar o carro, muita gasolina, muita fumaça dentro da cidade. O trem deixou saudade”,  afirma, pensativo.

Conterrâneo de Muniz e colega de trabalho, Arysbure Batista Eleutério escreveu em seu livro, Estrada de Ferro Bahia e Minas – A ferrovia do adeus (1991), uma descrição de toda a construção da via férrea de 600 quilômetros, suas dificuldades e acertos, afirmando que a extinção do trem só trouxe pobreza. “A estrada era um projeto local, expressão localizada de movimento comercial e desenvolvimento. A rodovia asfaltada subordina periferia a centros, ordena e hierarquiza. A primeira foi expressão de riqueza; a segunda, só nos deixa pensar em miséria”, afirma o autor.

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Campo das Vertentes em trilhos

No Campo das Vertentes, a linha de trem de passageiros e cargas que ligava Lavras a Três Corações também teve início no século XVIII. A iniciativa partiu do  Barão de Mauá e D. Pedro II e tinha aproximadamente 20 trens em funcionamento. Porém, após a privatização do sistema ferroviário e consequente sucateamento de todas as linhas, o abandono das estações e trens, que outrora eram imprescindíveis para desenvolvimento das cidades, foi inevitável.

E foi como tentativa de restauração e preservação dessa história que surgiu a Associação do Circuito Ferroviário Vale Verde (ACFVV), que está fazendo o reparo dos trilhos e preparando a reativação da linha. “Elas [as empresas privadas] escolheram o que queriam usar, e aquilo que não queriam foi abandonado, apodrecendo país afora: estações, pátios, equipamentos, locomotivas, vagões, carros de passageiros, ferramentas e móveis que foram perdidos para sempre”, afirma César Mori, presidente da Associação e um dos responsáveis pelo processo de reconstrução do patrimônio perdido.

RMV 233 , em Lavras - MG , 1998. FOTO: Observatório de Lavras
RMV 233 , em Lavras – MG , 1998. FOTO: Observatório de Lavras

A previsão é de que uma parte da linha, o trecho Lavras – Carmo da Cachoeira, um total de pouco mais de 50 km, fique pronto até o final do ano e que, após esse primeiro passo, haja um apoio maior para o restante da restauração. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) já  autorizou a realização do processo. O intuito não é somente a restauração, mas também não desperdiçar o dinheiro que já foi gasto. “O patrimônio está sendo ocupado, o povo volta a usar o trem aqui na região, o comércio em torno do trem melhora, as cidades se desenvolvem no eixo do trem, melhora a qualidade de vida das pessoas em função do projeto”, afirma Mori.

A estudante Helena Muniz acredita que essa linha vai ajudar na economia de Lavras, além de dar mais uma oportunidade de lazer à população das cidades pelas quais a linha passará. “Muitas pessoas vão sentir vontade de conhecer o passeio e levar amigos e família, porque é um trajeto bonito. E, mesmo que a taxa seja simbólica, esse dinheiro vai ajudando a restaurar mais e mais estações e linhas”, avalia.

“Ponta de areia, ponto final/ Da Bahia-Minas estrada natural/ Que ligava Minas ao porto, ao mar/ Caminho de ferro mandaram arrancar”. A música Ponta de Areia, de Milton Nascimento, nos conta da Maria Fumaça que trazia alegria ao povo mineiro, que trouxe, por tanto tempo, a vida por essas terras e que hoje não passa de uma “praça vazia”. A história do trem dentro do estado se entrelaça com a história social e cultural mineira e simbolicamente é gratificante pensar que, ao resgatar uma, estamos, concomitantemente, resgatando a outra.

 

TEXTO/VAN: Talita Tonso

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