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Os riscos do trabalho informal

Os dias de Aline começam bem cedo, às 6h da manhã. Ela acorda, arruma a casa e sai para trabalhar. Aline Ferreira tem 38 anos e trabalha informalmente como vendedora de roupas. Ela passa o dia inteiro visitando suas clientes que conhecem e reservam os modelos por meio da sua página no Facebook. Às 18h, ela volta para casa, toma banho e já se prepara para uma nova jornada. Dia sim e dia não trabalha como cuidadora de idosos. Em dias de escala, só chega em casa às 8h da manhã e, às vezes, já sai direto para atender suas outras clientes. A falta de reconhecimento nos antigos empregos e a vontade de conquistar sua independência financeira fizeram com que ela optasse por essa forma de sustento. “Trabalhando por conta própria eu mesma faço minha rotina, organizo meus horários e faço o que eu gosto”, explica.

A vendedora não está sozinha. Segundo o Censo de 2010 do IBGE,  5343 pessoas declararam trabalhar sem carteira assinada na cidade de São João del-Rei. Esse número representa quase 20% de todos os postos de trabalho levantados pela pesquisa. O mercado informal tem um papel significativo na economia brasileira. A Fundação Getúlio Vargas estima que esse setor movimentou no ano de 2013 o equivalente a 16,2% do PIB, o que corresponde a cerca de 782 bilhões de reais.

Mas quais são os benefícios e os riscos de se trabalhar na economia informal? Segundo o Prof. Aluízio Barros, doutor em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, a principal vantagem de se trabalhar por conta própria é a não incidência dos tributos cobrados pelo Governo aos pequenos empreendedores. Mas ele alerta que a falta do vínculo empregatício tem como piores consequências a falta de seguridade social aos trabalhadores e o impacto na qualidade dos produtos que acabam sendo vendidos sem uma fiscalização externa.

Para Rinaldo Fernandes, 48, o sustento por conta própria já se tornou coisa de família. Trabalhando como vendedor de rua há 34 anos, aprendeu a profissão com o pai que começou vendendo pipoca no centro de São João del-Rei em 1966. A tradição continuou com o filho, que também vende sorvetes e churros. Apesar dos 48 anos da atividade na família de Rinaldo, um futuro diferente espera suas próximas gerações. O seu filho mais velho cursa Engenharia Mecânica na Universidade Federal de São João del-Rei e não deve seguir o mesmo caminho do pai e do avô.

Dois lados

Mas a informalidade nem sempre é uma escolha. Roberto Grigoletto, 58, começou a vender artesanatos na adolescência inspirado pelo movimento hippie de que fazia parte. Hoje, mais de 30 anos depois, já acostumou com a profissão, mas também não vê outra saída “Devido à idade, nem que eu queira ir para o emprego formal teria condições. Se você passou dos 40 anos já tá fora da formalidade. É difícil conseguir um serviço”, frisa.

Maria Aparecida Pereira, 55, conseguiu! Depois de 12 anos enfrentando todas as dificuldades de vender suas mercadorias na rua, como o mau tempo e a falta de segurança, conseguiu uma vaga para trabalhar no camelódromo de São João del-Rei. O espaço foi criado pela Prefeitura Municipal em 2002 na tentativa de retirar os vendedores do centro da cidade, oferecendo com o pagamento de uma taxa, a opção de se trabalhar legalmente. Ela aprovou:
– “O bom daqui é tranquilidade que a gente tem para trabalhar. Não precisar ficar montando barraca, não precisar ficar na rua, com sol, chuva e tudo mais. Aqui ficou perfeito, ficou ótimo.”

A economia informal ainda é muito forte, mas esse cenário vem mudando e cada vez mais brasileiros estão seguindo o caminho de Aparecida Pereira. A quantia do PIB movimentada pela atividade diminuiu 0,6% de 2012 para 2013 e vem caindo nos últimos três anos, ainda segundo dados da FGV. “O emprego informal sempre foi significativo na economia brasileira, mas vem diminuindo ao longo dos anos com a formalização de empresas incentivadas pelos governos federal e estadual, a simplificação de impostos e a fiscalização rigorosa”, aponta o Professor Aluízio Barros.

Apesar de todas as dificuldades, muitas pessoas ainda vão continuar optando por essa forma de vida. Aline já sabe que não quer mais mudar. “Trabalho desde muito nova e sei que em qualquer profissão que exerça não estarei tão satisfeita como estou agora. Minha vontade é que tudo dê certo para que eu não precise mais trabalhar para ninguém”, conclui.

Texto: VAN/

Luana Levenhagen
Foto: Luanha Levenhagen

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