Perfil Gilson Peranzzetta: O Arranjador e a Estrela

Quem vê a agilidade do maestro Gilson Peranzzetta ao tocar o piano, o acordeon e até mesmo o clarinete, não imagina que os tendões de seu braço direito sejam feitos de nylon. Foi em 1965, enquanto cumpria o serviço militar obrigatório, que o jovem Gilson, de 19 anos, vítima de um tiro acidental de metralhadora Ponto 30, quase viu o final de sua carreira como instrumentista. Coincidentemente ou não – como frisa o músico ao citar a máxima de Alan Kardec, de que nada é por acaso -, havia por ali um médico chileno que  estava no Brasil participando de um congresso de tendões de nylon. Ao saber da possível amputação, ofereceu-se para aplicar a então inovadora técnica que, para a felicidade da música brasileira, salvou o braço e os sonhos do rapaz que tocava nos bailes da noite carioca. 

Gilson, hoje com 67 anos, iniciou sua carreira na música desde muito cedo. Com 10 anos integrava junto a seu irmão Gelson, a chamada “Dupla Pingue Pongue”, nome dado devido ao patrocínio dos meninos acordeonistas pela marca de goma de mascar “Pingue e Pongue”. Naquela época, os irmãos se apresentavam no Fã Clube Mirim de Brás de Pina, bairro onde o músico nasceu e onde fica a rua Marari, que mais tarde viria a ser o nome de seu próprio selo, a gravadora “Marari Discos”  criada por Peranzzetta em 1999.

Pianista, compositor, arranjador, orquestrador e regente, o músico, escolado internacionalmente, firmou diversas parcerias ao longo de sua carreira. Nomes como Hermeto Pascoal, Jorge Vercilo, Gal Costa, Nana Caymmi e Gonzaguinha fazem parte do extenso currículo de Gilson, também conhecido como “O Arranjador das Estrelas”. Porém, sua principal parceria foi com Ivan Lins, músico do rio, que conheceu em 1974 após voltar de uma turnê pela Europa. Os frutos da união foram fartos: nos mais de 10 anos de dupla, ganharam o mercado norte-americano e tiveram sucessos gravados por grandes nomes do Jazz, como George Benson, Take Six, Jane Monheit e Quincy Jones. Jones além de músico era o produtor dos dois nos EUA e um grande admirador do brasileiro, tendo inclusive citado em uma entrevista para José Maurício Machline, Gilson Peranzzetta como o quinto melhor arranjador do mundo!

Em 1985, porém, a parceria Peranzzetta-Lins chegava ao fim. O aclamado arranjador das estrelas sentia vontade de alçar vôos com seu próprio corpo celeste. A partir daquele ano, o pianista começou a gravar seus próprios álbuns, começando por Portal dos Magos, no mesmo ano. Hoje, com 40 discos solo e mais de 150 canções sob o selo de sua gravadora, é indubitavelmente um dos grandes nomes da música Brasileira, paixão maior de sua vida. “A música é minha religião, o palco a minha igreja e o piano o altar onde humildemente eu faço as minhas orações”, relata o músico.

Atualmente, Peranzzetta participa dos mais importantes festivais de Jazz do mundo, realizando todo ano, turnês pela Europa, Eua e Japão. Além disso, trabalha como maestro e arranjador junto a WDR Big Band, na Alemanha, utilizando um repertório genuinamente brasileiro. Em suas composições e arranjos, mesmo que mesclada a outras nuances sonoras que o caracterizam como um músico cosmopolita, fica clara a presença de sua brasilidade musical, elemento primordial de sua música. Para Gilson, a música brasileira é a música mais linda do mundo.

O elegante senhor de rabo de cavalo e barba grisalha, de imensa bagagem e tendões de nylon, é o músico homenageado pelo 6º Festival Duo Jazz de Tiradentes e se apresenta dia 15 de outubro nos palcos do evento, que é aberto ao público. Com a participação do cantor João Senise, Peranzzetta é a grande estrela da constelação de artistas da atual edição. Trazendo todo um universo de Jazz e MPB consigo, é uma atração imperdível para aqueles que se dizem amantes da boa música.

VAN/ Samuel Rabay
Foto: Site oficial Gilson Peranzzetta

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