São João del-Rei é palco para a Poesia

Dani da Gama

Foto: Fabiano Porto / Coletivo SENB

Nos dias 20 e 21 de abril, artistas de Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo realizaram apresentações musicais e poéticas nas ruas de São João del-Rei, além de oficinas e intervenções artísticas.

Durante a tarde de sábado, diversas intervenções ocorreram no Distrito de São Gonçalo do Amarante (Caburu), como a oficina “Ritmo & Poesia” (do grupo Lesma Poesia, de Conselheiro Lafaiete, e Sonora Parceria, de Santa Catarina). À noite, no Botequim Cultural Bric’s, onde também foram apresentados curtas da Mosca – Mostra de Cinema de Cambuquira, artistas reuniram-se em um animado sarau poético.

O público pôde se encantar com as canções de pura poesia do grupo Sonora Parceria e com a musicalidade da poética do grupo Lesma. Artistas de São Paulo, vinculados ao projeto de crowdfunding, Ônibus Hacker, bem como artistas locais e de outras cidades mineiras, tiveram 
o palco livre para declamações e esquetes.

Marlene Porto Bandeira, poetisa e autora do livro Entre Punhais e Girassóis, conta que vem de um Salão de Poesia, em Montes Claros, que ocorre há 26 anos, afirmando que, embora os formatos sejam parecidos, o Abril Poético a encanta, pela maravilha de fazer a poesia “andar”, ressaltando a possibilidade de contato entre artista e público.

Segundo ela, a poesia sai dos livros e vem galgar ladeiras e andar nas calçadas, como toda a gente. “Não ficamos restritos a palco, a poesia itinerante é um trabalho em que levamos todos para o centro, saímos pelo caminho levando a poesia como essa rainha da bateria que vai na frente e arrebanha todo o povo; quem quiser vem pro meio”, alegra-se Marlene.

No domingo à tarde, a programação prosseguiu com uma procissão poética nas ruas de São João del-Rei. O cortejo “A poesia sobe a ladeira” partiu do Largo Tamandaré, percorrendo as ruas do Centro Histórico. Paisagens centenárias, como o Beco do Cotovelo, o Pelourinho e a Catedral Basílica Nossa Senhora do Pilar, tornaram-se palco para declamações e apresentações teatrais.

A programação contou ainda com a participação do grupo Casa do Teatro, de Conselheiro Lafaiete, que apresentou cena curta no Pelourinho, e dos jovens artistas de Catas Altas da Noruega. Carlos Magno Rodrigues – o Grilo –  de 15 anos, de Catas Altas, declamou vários poemas no cortejo poético e se orgulha: “Com a poesia, eu aprendo bem mais, e acho que o projeto pode levar cultura até as pessoas.”

O Abril Poético é organizado pela Ong Lesma (Liga Ecológica Santa Matilde), que foi criada em Conselheiro Lafaiete, em 1998, para trabalhar com questões ambientais, de preservação cultural e com a memória de cidades do Alto Paraopeba. 

Foto: Fabiano Porto / Coletivo SENB

Wagner Vieira pertence ao grupo e explica que o Abril ocorre desde 2006, tendo começado em três cidades e aumentado seu corpo, de modo que hoje agrega mais de nove cidades. 
“O evento já passou a ser nacional, porque temos aqui hoje poetas de São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, além de Minas Gerais”. Para ele, a característica fundamental do Abril Poético é sua itinerância. “A gente entende que a poesia pode ir até as pesssoas. Hoje, nós temos muitas formas de comunicação e entretenimento, de modo que, se os poetas não forem atrás de seu público, a poesia pode enfraquecer”, ressalta.

Ele vê o Abril como uma forma de poder divulgar e disseminar a poesia, além de propiciar a valorização da cidade como cenário para a arte. “Como vivemos numa região com um patrimônio histórico muito rico e diverso, esses trabalhos dentro da cidade fazem com que ela e as pessoas da cidade sejam valorizadas. Nosso trabalho é levar a poesia, interagindo com os poetas locais e utilizando o cenário como fomento cultural”.

Wagner conta ainda que a Lesma já realizou trabalhos de oficina de poesia em comunidades ribeirinhas no Amazonas e na bacia do Solimões, trabalhando a linguagem poética em uma região completamente diversa da nossa. “A poesia é uma linguagem universal”, conclui.
Dayse Arruda, organizadora do evento em São João del-Rei, explica que a poesia está em toda parte, sendo necessário apenas que se abra a percepção para o assunto. 

“O cotidiano muitas vezes transforma o belo em casual. A arte-poesia na rua nos re-direciona para essa percepção. Colocar nela poetas, músicos, artistas plásticos, cinema e demais artes desperta a emoção e a sensibilidade da sociedade que, muitas vezes, não têm contato direto com tais atividades. A resposta chega através de manifestações individuais ou de grupos, que dividem seus conhecimentos e cultura com todos que participam do evento. Ela conta que, neste evento, a recepção e doação de afeto tornaram-se presentes. “A poesia acariciou os olhos e ouvidos de todos os participantes”, frisa. 

Este ano, o circuito do projeto passou por Conselheiro Lafaiete, Congonhas, Cristiano Otoni, Catas Altas, Queluzito, BH, São João del – Rei, e se encerra em Cambuquira. Do palco às cadeiras do público, das ruas às janelas, a poesia chega onde deve estar, como já doutrinou o poeta Lindolf Bell: “O lugar do poema é onde possa inquietar”.

Deixe uma resposta