Um alquimista da arte

Da simplicidade,  um artista reconhecido…das dificuldades, a persistência para continuar… do lixo, as mais belas formas de arte.

“Embora seja difícil a pessoa viver da sua arte…o artista tem que continuar, pela sua teimosia e pela sua coragem. O tempo é sua resposta pra tudo”. Com palavras enfáticas, o artista plástico Wangui agradece, com brilho nos olhos, o reconhecimento que tem.

Para ele, essa valorização só tem sentido quando o artista ainda está vivo, quando o sangue corre nas veias, quando a emoção faz parte das conquistas. Funcionário do guarda-volumes da rodoviária de São João del-Rei, Wangui concilia a vida de artista com sua profissão, que lhe garante o sustento.

Sua paixão pela arte permitiu que ele tivesse, em seu local de trabalho, um painel com suas obras e a liberdade para conversar com as pessoas que quisessem conhecer um pouco da sua história. A vida nem sempre foi fácil, mas ele transformou os obstáculos em degraus para o sucesso. 

Desde criança, Wanderley Mario Guilherme, conhecido como Wangui, já despertava seu interesse por desenhos, ilustrando seus cadernos e se deliciando com as aulas de arte.  Com o passar dos anos, surgiu a vontade de pintar. Por conta própria, comprou algumas tintas básicas e a tela, se realizando ao reproduzir a imagem de uma mulher que havia visto em uma revista.

O tempo passou e a vontade de criar continuava falando mais alto. Sem técnica suficiente para se tornar um pintor, Wangui, incentivado pela irmã, Cecília, conseguiu, com muito sacrifício, uma vaga em um curso de pintura, após a desistência de um aluno.

Com o aprimoramento da arte, veio a vontade de fazer algo em defesa do meio ambiente.  A partir da sua inquietação sobre o que fazer com o lixo, teve a ideia de reutilizar tudo aquilo que, aparentemente, não tinha mais serventia. Ao invés de pintar em telas, Wangui passou a pintar em materiais alternativos, como lascas,  galões de leite e telhas, transformando objetos inutilizados em arte. 

“Com a tela, não se tem aquela liberdade. Ela só te dá a dimensão naquela medida, e o material reciclado te possibilita viajar na superfície, através dos ondulados de uma pedra, da madeira quebrada, torta. E, aí, você transforma em arte.”

E foi com a emoção de ver os objetos se transformando em arte que o artista plástico tomou coragem e inscreveu sua obras no 3º Inverno Cultural  da  antiga FUNREI, atual Universidade Federal de São João del- Rei (UFSJ). Para a sua surpresa, o material foi aprovado, configurando a primeira oportunidade de  se lançar como pintor, em 1990. A partir daí, vieram várias exposições e feiras.

Mas foi em 1997, ao passar por um momento difícil, após o falecimento de seu pai,  que Wangui recebeu um convite que transformaria sua carreira: a Caixa Econômica Federal o convidou para expor suas obras, elevando e projetando Wangui como artista na cidade e região.

E em 2000, ele teve a oportunidade de fazer a primeira retrospectiva da sua carreira . “ Fazer 21 anos de arte é emocionante…a retrospectiva é o ponto sublime para o artista”. A exposição denominada A maior idade de um artista, Wangui, 21 anos de arte, traços retrospectivos, aconteceu no Museu Regional e reuniu mais 100 obras da sua trajetória.

Foram muitos os momentos inesquecíveis na vida desse humilde artista, que define cada momento vivido como uma parte pintada na aquarela das emoções. Com a generosidade que lhe é nata, Wangui também pôde compartilhar o que sabia em cursos abertos a todas as idades e também em projetos de terapia ocupacional. Foi a convite do Curso de Extensão de Psicologia da UFSJ que Wangui dividiu sua pintura com o núcleo de saúde mental da cidade. “Ver sua arte tocando pessoas tão especiais é dignificante para o artista”, afirma ele.

Caminhando pelas ruas da cidade, Wangui é reconhecido por onde passa, e tem orgulho da notoriedade que conquistou. Sua caminhada é longa, seu sorriso é largo, sua arte é sua marca registrada.  

O carismático artista plástico renuncia a qualquer tipo de influência de pintores renomados, para ser o que ele pode ser de melhor, isto é, ser ele mesmo e não ser apenas um copista.  “Através da  minha arte, pude mostrar que o pintor não precisa usar só a tela. Ele pode viajar no material que ele tem, através da sua imaginação, da sua força interior. O artista viaja e transporta a sua energia, através dos seus traços e da sua cor, em qualquer objeto.  Eu gosto de ser autêntico, de ser eu mesmo, de ser Wangui”.

VAN/Marcilene Hallak
Foto: Marcilene Hallak

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