Um grito ao abandono: antiga escola do Bichinho pode virar espaço cultural

Coletivo para arrecadar fundos foi criado e pretende levar cultura e oportunidade aos moradores

FOTO: Divulgação
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“Traga de volta o espaço que Bichinho precisa” é o nome do projeto sociocultural que está sendo desenvolvido no arraial do Gritador, localizado no Bichinho. O objetivo é revitalizar uma escola abandonada do local e transformá-la em um espaço cultural para a própria comunidade. A ideia surgiu de frequentadores do Gritador, que criaram um coletivo para arrecadar fundos, dar início à reforma da escola e construir o Espaço Cultural do Gritador.

A idealizadora da proposta, Mariana Martins, conta que frequenta a comunidade há trinta anos e que sempre se sentiu incomodada ao passar e ver aquele local abandonado, sem utilidade alguma. Ela sempre teve a intenção de criar um projeto que atendesse ao povoado, então, há dois anos, começou a desenvolver uma proposta para criação do espaço cultural. A planta do projeto foi feita voluntariamente, e a divulgação nas redes sociais começou junto com a campanha no coletivo.

Por enquanto, o projeto está colhendo ajuda financeira a partir de contribuições em um coletivo online, mas a organizadora disse que também pretende entrar em projetos de lei que incentivem o trabalho, ajudando na criação e na manutenção do espaço.

Para ajudar na campanha, é só acessar o link clicando aqui, o valor mínimo para doação é de R$10,00, e o coletivo se encerra no dia 31 deste mês.

A previsão é que o Espaço Cultural do Gritador seja inaugurado em setembro deste ano.

 

Recuperar é reviver

A Escolinha do Gritador abandonada desde 2001. FOTO/VAN: Vanessa Vicente
A Escolinha do Gritador abandonada desde 2001. FOTO/VAN: Vanessa Vicente

A escola teve suas atividades encerradas no Gritador há alguns anos, mas alguns ex-alunos e ex-alunas ainda vivem no local. A moradora do Bichinho, Adriana da Costa, frequenta o arraial há 16 anos e considera que a revitalização do espaço será importante. Ela acredita que é uma oportunidade de interação entre os antigos alunos, seus filhos e netos, já que a maioria da comunidade do Gritador, segundo ela, estudou na escolinha.

De acordo ainda com a idealizadora do projeto, Mariana, no arraial do Gritador, os adolescentes não têm muita coisa para fazer. Como em todos os municípios com escolas pequenas, eles não têm acesso a atividades diversificadas. Por isso, para ela, o espaço cultural não vai só significar a possibilidade de ampliação do acesso à cultura, “vai ser um espaço de discussão, um lugar democrático”, salienta. O local irá ajudar a criar uma identidade na comunidade, dando vida à interação e à socialização entre os moradores.

A antiga funcionária da Escola do Gritador, Maria do Carmo de Lima, mais conhecida como Inha, trabalhou no local por oito anos, cuidando da limpeza e da merenda dos alunos. Ela ainda mora no povoado e disse que seus dois filhos foram também alunos da escolinha abandonada. Inha conta que o local é pequeno, possui somente um cômodo, e que trabalhava nos dois turnos na época, manhã e tarde, divididos entre alunos de primeira à quarta série.

Para a moradora, como está, o espaço não tem utilidade, sofre depreciações e serve de ponto de bagunça. Inha espera que, com a reforma, a antiga escola transforme-se em ambiente de encontro para a comunidade local.

 

Artesanato, educação e socialização

O distrito é conhecido pela sua grande produção de artesanato a partir de materiais recicláveis. Por isso, pretende-se criar também oficinas no Espaço Cultural do Gritador, que chamem a atenção principalmente dos jovens, informou Mariana. O objetivo é que os adolescentes participem e aprendam ludicamente.  Ela disse que está tentando conseguir um projeto que una o uso da tecnologia à elaboração de brinquedos, como a criação de pipas com rabiolas de “led”. “Hoje em dia, os meninos querem o celular, não adianta colocar peça de teatro”, acredita Mariana. Essa é uma das razões para utilizar os aparelhos eletrônicos nas atividades educacionais de jovens e crianças.

Mas o espaço cultural também será ponto de encontro para os demais moradores da comunidade. É importante, segundo a idealizadora do projeto, que todos participem de  reuniões e das oficinas, justamente para criar essa troca de vivências e sabedoria. Mariana afirmou que “a tradição do Bichinho vem de artesanato, de construção de madeira e essas coisas”, por isso a Oficina de Agosto, empresa colaboradora do projeto, também vai oferecer aulas de artesanato para a população.

 

Sobre a antiga escola do Gritador

É possível ver algumas pichações feitas de branco na parede velha. FOTO/VAN: Vanessa Vicente
É possível ver algumas pichações feitas de branco na parede velha. FOTO/VAN: Vanessa Vicente

Em meio a cultura, tradição e arte, encontra-se o distrito Vitoriano Veloso, popularmente conhecido como Bichinho, pertencente ao município de Prados. O local, localizado a 12 km de Prados e a 7 km de Tiradentes, é conhecido pela sua rica gastronomia mineira e pela sua notória produção de artesanato, sendo lugar de passagem para centenas de turistas.

Bichinho possui um arraial chamado de Gritador pelos moradores, popularização de Gret’Douro – Greta de Ouro, Gruta de Ouro, nome dado devido à grande exploração de ouro no local por volta do século XVIII. A pequena comunidade, ainda de chão com terra vermelha, abriga antigos moradores em casas simples e com muita história para contar.

Geralda Moreira, por exemplo, uma senhora de 75 anos, disse que sempre morou no local, usando a expressão “a vida inteira”, e que teve oito filhos, “uma porção de filho”, acrescentou ela. A partir das dificuldades da vida, Dona Geralda contou que foi preciso construir uma escola no local, já que na época estudar no Bichinho era tarefa difícil em razão da distância e da falta de transporte.

O marido de Dona Geralda foi quem tomou a iniciativa, e os vizinhos juntaram-se a ele na construção da pequena escolinha, onde, inclusive, estudaram os oito filhos do casal. “Ele deu a ideia e combinou com os vizinhos que também tinham filhos, então, construíram essa escola”, contou Dona Geralda. Para ela, a criação do espaço cultural será uma ótima oportunidade para seus netos desfrutarem da antiga área, mas de uma nova maneira.

Pela relevância do local para a população, a organizadora Mariana conta também com a ajuda dos moradores na reforma. Da mesma maneira que eles construíram a escola, ela acredita que irão ajudar no Espaço Cultural do Gritador.
TEXTO/VAN: Vanessa Vicente

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