Junho veste todo mundo de jeca, na simplicidade, no sossego, pra mostrar que a vida tem jeito. FOTO/VAN: Emanuel Reis

Um mês que abre corações

Essa não é a “Quadrilha” do João que amava a Teresa que amava o Raimundo, de Drummond. Essa é a quadrilha em que as formas de amor são recíprocas. Vamos lá.

Junho veste todo mundo de jeca, na simplicidade, no sossego, pra mostrar que a vida tem jeito. FOTO/VAN: Emanuel Reis
Junho veste todo mundo de jeca, na simplicidade, no sossego, pra mostrar que a vida tem jeito. FOTO/VAN: Emanuel Reis

Os dias passam rápido, o que faz com que o ano também passe. Parece que há poucos instantes estávamos festejando a virada do ano e –  pasmem! – já estamos no meio de 2016. É junho. O mês dos meios. Dos dias e das noites frias, mas dos corações quentes.

Junho fecha as portas para a estação das folhas secas e as abre para a estação em que as folhas são cada vez mais ausentes. Em junho, Pedro, João e Antônio festejam no céu e são celebrados na Terra. Em junho, a noite tem mais estrelas, e acendemos fogueiras. Junho é o mês da simplicidade, do romantismo, da felicidade encontrada no pouco. Em junho, dançamos quadrilha e, nesse mês, nessa dança, todo mundo é igual. E esse é o ponto principal deste  texto.

Basicamente, nas quadrilhas, encena-se um casamento. Os casais dão os braços e começam a dançar. Esse é o foco da noite. É um momento de proximidade e de comunhão entre as pessoas. Até o padre entra na roda! Só que a noiva e o noivo não são o centro, pelo menos não aqui. Vamos falar de quem é comum, de quem é de todo dia, de quem comemora.

Independente da pessoa que é seu par, você ainda irá passar por todos. Em algum momento, os casais mudam. A dama passa para o cavaleiro da frente, como um ciclo. Essa ideia de ter que lidar com todo mundo da roda é incrível! Há quem dê apenas alguns passos tímidos, mas pelo instante de intimidade, dali a pouco os “jecas” se soltam. Na roda da quadrilha, todo mundo é amigo e precisa ser.

E tem gente que torce pra forrozear com alguém interessante. Olhares descarados não combinam com o romantismo da noite. Então, você joga aquele charme e finge ou sente timidez. Procura despertar o interesse de quem toca o seu coração, assim como quem toca a viola ou a sanfona para seguir com a música. E bate aquela insegurança de com quem vamos fazer o “tu”? Se cair com quem se desejava, bem, mas se não cair? Tem-se sempre outra chance. Porque o “sangê” ainda não acabou, e ainda vai chegar o “gavião”, em que você escolhe com quem dança.

A quadrilha produz o contato, faz com que encostemos nas pessoas. Porque ninguém dança forró sem abraçar. Em dias cada vez mais corridos e atarefados, as pessoas vão se esquecendo de abraçar, de ter tempo para as outras. E isso é o mais mágico. Nesse festejo, todo mundo se esbarra, todo mundo se esquece das preocupações. Porque é momento de “olhar a cobra”, girar e girar por ser “mentira”. “A ponte quebra”, e “é mentira”, os problemas não existem, são pequenos e são, como dito, de mentira. Quem dera que a vida fosse assim!

O caracol mistura todo mundo! É rico, é pobre, é branco, é preto, é pardo, é casado, é solteiro, é gente de toda gente. Você está por dentro da roda e, após alguns passos, de fora: os altos e baixos, os momentos de transição que vivemos. No fim, todo mundo dá tchau, acena, manda beijo. A famosa despedida. Mas a quadrilha ainda não acabou.

Chegou a hora das trocas de olhares, antes escritas no papel e entregues nos correios elegantes. Aí, o amor não fica só nos noivos, não fica só na maçã do amor, mas paira com a brisa geladinha da noite de junho. É coisa de gente comum!

Antônio, João e Pedro ficam lá no céu colorindo o mês seis, intercedendo pelos casais que se formam e estreitando os laços de amizade entre o povo. Acredito que seja o mês em que eles dão o máximo de si para que tudo dê certo e para que todos saiam felizes. Também acho que junho vem para apaziguar a correria dos outros onze meses.

No fim, isso que é o bonito do mês, o festejo que faz todo mundo, mesmo que vestido de jeca, dar voz aos sentimentos mais puros e mais nobres que temos. A correria do dia apaga o brilho dos nossos olhos, mas aquele calorzinho gostoso da fogueira estrala uma sensação de que ainda vale a pena se atrever a ser simples.

 

TEXTO/VAN: Emanuel Reis

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